Esta quinta-feira, 12 de Dezembro, às 21h30, os cúmplices do costume reúnem-se no Quiosque Al'Mutamid para a última Tertúlia Mais Pequena do Mundo deste ano.
Como sempre, a Tertúlia, apesar de positiva e declaradamente micro, está aberta a todos os que queiram participar ou simplesmente assistir, procurando assim - e para contrapor à exiguidade do espaço - abordar e deambular por um largo espectro de temas, abordagens, opiniões e gostos.
A Carmo, dinamizadora do Quiosque, já reservou um cantinho específico para os textos que vão sendo lidos/debatidos quinzenalmente. Falta baptizar o dito "mural". Aceitam-se sugestões originais...
Lembramos ainda que, para os mais curiosos e interessados, existe no Quiosque um dossier, disponível para consulta, em que estão compilados os contributos partilhados nas várias sessões já realizadas desde 17 de Outubro deste ano.
Além dos balanços que vamos apresentando online sobre as várias sessões, pensamos em breve divulgar esses conteúdos na íntegra junto do público em geral, isto em formato digital através de uma periodicidade semestral. Estejam atentos...
Uma parceria entre a Biblioteca Municipal de Silves e as freguesias do concelho para um projecto plurianual de promoção da leitura e da literacia a pensar no que mais importa: as PESSOAS
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
5 de Dezembro: Dia Internacional do Voluntariado
Caros voluntários e amigos, nesta quinta-feira comemora-se o Dia Internacional do Voluntariado.
Aceitam-se sugestões vossas para uma ronda de acções durante esse dia (ou até para sexta-sábado-domingo) a realizar na cidade de Silves, quer em domicílios quer em espaços públicos, com leituras e momentos poético-musicais, como já fizemos anteriormente.
Aqui ficam alguns vídeos de campanhas de voluntariado, com testemunhos imbuídos do espírito que nos move e faz continuar:
Contactem-nos: biblioteca@cm-silves.pt | 282 442 112
Aceitam-se sugestões vossas para uma ronda de acções durante esse dia (ou até para sexta-sábado-domingo) a realizar na cidade de Silves, quer em domicílios quer em espaços públicos, com leituras e momentos poético-musicais, como já fizemos anteriormente.
Aqui ficam alguns vídeos de campanhas de voluntariado, com testemunhos imbuídos do espírito que nos move e faz continuar:
Contactem-nos: biblioteca@cm-silves.pt | 282 442 112
No rescaldo do debate com Paulo Morais
No último Sarau Instável, realizado a 29 de Novembro passado, o convidado Paulo Morais revisitou vários tópicos abordados no seu mais recente livro: Da Corrupção à Crise. Que fazer? (uma edição da Gradiva).
A sala foi pequena para mais de uma centena de pessoas que aderiu ao evento e que não se coibiu de colocar várias questões ao conhecido professor universitário e activista cívico. Um debate de cerca de três horas em torno de questões que interessam a todos e a todos afectam, como a transparência, a corrupção, o sistema político-partidário e sua relação com a Banca e com os interesses dos grandes grupos económicos, o papel dos eleitores, etc.
O Sarau pretendeu ainda aprofundar certos temas específicos, de forma a que o público presente ficasse com um conhecimento e visão mais concretos e consistentes de várias matérias relativas ao binómio Corrupção/Crise, como sejam:
. Veiculação pública de duas mentiras: os portugueses são os principais responsáveis pela crise; e o estado a que se chegou é inevitável e inalterável, não havendo outras saídas;
. Conflito de interesses/regime de incompatibilidades (quer no caso dos deputados da Assembleia da República, quer a nível de outros cargos públicos de gestão/administração);
. Cultura do "respeitinho";
. Mecanismos de denúncia e de protecção legal dos denunciantes / descriminalização da difamação;
. Presunção de inocência e seus efeitos (legitimidade legal vs. legitimidade ética);
. Índice de Transparência Municipal (baseado em 83 indicadores agrupados em 7 dimensões: informação sobre organização, composição social e funcionamento da edilidade; planos e relatórios; impostos, taxas, tarifas, preços e regulamentos; relação com a sociedade; contratação pública; transparência económico-financeira; e transparência na área do urbanismo);
. Enriquecimento ilícito e prevenção da corrupção;
. Comissões de inquérito na Assembleia da República: função e resultados práticos / desresponsabilização e negligência dos dirigentes (a argumentação do desconhecimento e a "amnésia selectiva");
. Incumprimento, por Portugal, de 12 das 13 recomendações feitas pelo Grupo de Estados contra a Corrupção (GRECO) do Conselho da Europa;
. Crise da democracia: renovação dos actores e das práticas;
. Descrença no modelo europeu (uma Europa que salva bancos em vez de salvar pessoas);
. "Vassalagem à corrupção": os perigos do contágio angolano;
. Minoria corrupta e "exército incontável" de cúmplices passivos;
. Saídas da crise (caminhos de mudança do actual cenário):
» O combate eficaz à corrupção
» Transparência na vida pública
» Leis claras e simples
» Uma Justiça eficaz
» Uma solução justa para o défice
» O combate ao desperdício
» Uma nova classe dirigente.
Sugerimos três sites onde existe informação abundante, detalhada e actualizada sobre estes temas:
http://transparencia.pt/
http://blogues.publico.pt/asclaras/
http://madespesapublica.blogspot.pt/
Para fechar, aqui ficam três textos que foram lidos durante o debate, bem ilustrativos da temática em causa:
A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande […]. Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros. Tão alheia cousa é não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer.
Padre António Vieira, in Sermão de Santo António aos Peixes, pregado na cidade de São Luís do Maranhão em 1654, VII-VIII-IX
O desempregado com filhos
Ele estava desempregado há muito tempo.
Tinha filhos e do trabalho restavam cadilhos. E da fome sobravam rastilhos.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há mais tempo do que sabia, e mesmo se não queria, tinha filhos, aceitou.
Logo ali no cepo a deixou.
A mão, a mão, a mão.
Outra vez despedido de novo procurou emprego.
Só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão, aquela que te resta, a segunda mão.
Ele estava desempregado, tinha filhos, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
E quando um dia lhe disseram; só tens emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há mais tempo do que podia, tinha filhos, aceitou, e baixando a cabeça, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Brecht (2004)
A sala foi pequena para mais de uma centena de pessoas que aderiu ao evento e que não se coibiu de colocar várias questões ao conhecido professor universitário e activista cívico. Um debate de cerca de três horas em torno de questões que interessam a todos e a todos afectam, como a transparência, a corrupção, o sistema político-partidário e sua relação com a Banca e com os interesses dos grandes grupos económicos, o papel dos eleitores, etc.
O Sarau pretendeu ainda aprofundar certos temas específicos, de forma a que o público presente ficasse com um conhecimento e visão mais concretos e consistentes de várias matérias relativas ao binómio Corrupção/Crise, como sejam:
. Veiculação pública de duas mentiras: os portugueses são os principais responsáveis pela crise; e o estado a que se chegou é inevitável e inalterável, não havendo outras saídas;
. Conflito de interesses/regime de incompatibilidades (quer no caso dos deputados da Assembleia da República, quer a nível de outros cargos públicos de gestão/administração);
. Cultura do "respeitinho";
. Mecanismos de denúncia e de protecção legal dos denunciantes / descriminalização da difamação;
. Presunção de inocência e seus efeitos (legitimidade legal vs. legitimidade ética);
. Índice de Transparência Municipal (baseado em 83 indicadores agrupados em 7 dimensões: informação sobre organização, composição social e funcionamento da edilidade; planos e relatórios; impostos, taxas, tarifas, preços e regulamentos; relação com a sociedade; contratação pública; transparência económico-financeira; e transparência na área do urbanismo);
. Enriquecimento ilícito e prevenção da corrupção;
. Comissões de inquérito na Assembleia da República: função e resultados práticos / desresponsabilização e negligência dos dirigentes (a argumentação do desconhecimento e a "amnésia selectiva");
. Incumprimento, por Portugal, de 12 das 13 recomendações feitas pelo Grupo de Estados contra a Corrupção (GRECO) do Conselho da Europa;
. Crise da democracia: renovação dos actores e das práticas;
. Descrença no modelo europeu (uma Europa que salva bancos em vez de salvar pessoas);
. "Vassalagem à corrupção": os perigos do contágio angolano;
. Minoria corrupta e "exército incontável" de cúmplices passivos;
. Saídas da crise (caminhos de mudança do actual cenário):
» O combate eficaz à corrupção
» Transparência na vida pública
» Leis claras e simples
» Uma Justiça eficaz
» Uma solução justa para o défice
» O combate ao desperdício
» Uma nova classe dirigente.
Sugerimos três sites onde existe informação abundante, detalhada e actualizada sobre estes temas:
http://transparencia.pt/
http://blogues.publico.pt/asclaras/
http://madespesapublica.blogspot.pt/
Para fechar, aqui ficam três textos que foram lidos durante o debate, bem ilustrativos da temática em causa:
A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande […]. Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros. Tão alheia cousa é não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer.
Padre António Vieira, in Sermão de Santo António aos Peixes, pregado na cidade de São Luís do Maranhão em 1654, VII-VIII-IX
Alberto Pimenta
O desempregado com filhos
Ele estava desempregado há muito tempo.
Tinha filhos e do trabalho restavam cadilhos. E da fome sobravam rastilhos.
Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há mais tempo do que sabia, e mesmo se não queria, tinha filhos, aceitou.
Logo ali no cepo a deixou.
A mão, a mão, a mão.
Outra vez despedido de novo procurou emprego.
Só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão, aquela que te resta, a segunda mão.
Ele estava desempregado, tinha filhos, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
E quando um dia lhe disseram; só tens emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há mais tempo do que podia, tinha filhos, aceitou, e baixando a cabeça, aceitou.
Porque o tempo lhe fugia, entre os últimos dedos lhe fugia,
a mão, o tempo, a mão.
Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Brecht (2004)
A propósito do novo disco "Alegria" (2013), de Cristina Branco,
em que revisita Gonçalo M. Tavares ("O desempregado com filhos"),
entre outros autores portugueses
Balanço da última Tertúlia
No passado dia 28 realizou-se a penúltima Tertúlia Mais Pequena do Mundo deste ano. Juntaram-se presenças habituais a outros cúmplices que agora se estrearam na Tertúlia, e mais uma vez houve leituras e outras partilhas, bem como debate sobre várias questões actuais.
- Marco Mackaaij trouxe vários poemas de autores holandeses - universo pouco conhecido entre nós -, traduzidos por si, e ainda enquadrou e leu, entusiasticamente e com alguma ironia pelo meio, alguns textos poéticos da sua autoria. Entre estes últimos transcrevemos dois:
PIIGS neo-liberais
Somos todos iguarias
Uns ainda mais que outros
Na quinta dos canibais
[sem título]
Uma cara jovem no jornal
Olhar não muito inteligente
Mas sem traços de atraso mental
Não propriamente bonita
Embora não repugnante
A pele denuncia uma fumadora compulsiva
Tem olheiras e uma expressão indiferente
Provavelmente não acabou a escola (ainda)
Não sei porquê, parece-me desempregada
Manhãs na cama, tardes pelas ruas
Noites de televisão e computador
O cinzeiro o depositário da sua frustração
Uma vez por mês a espera na segurança social
Maço de tabaco na mão como a mãe
No ar de jovem insatisfeita já paira
a mulher adulta resignada com a seca
chamada vida
Mas pode ser tudo preconceitos meus
Imagino sempre o pior
Tem apenas uma cara perfeitamente olvidável
Ao passarmos por ela na rua
Numa tarde qualquer
Ele deve ter pensado o mesmo
Antes dela o agredir, derrubar e
pontapear a sua cara (homossexual)
até à morte
E dois exemplos de poetas da Holanda:
O Poeta Romântico
Depois de, uma vez e acima de tudo, me ter apercebido
da dissociação trágica do meu ser
- tinha a certeza que nunca mais recuperava -
desde
descontentamento com o dia-a-dia, mesmo sofrer
de presente inalcançável, doloroso desejo
de não-sei-quê, se tornou dominante
nunca deixei de constantemente morrer jovem.
De Romantische Dichter
Anton Korteweg
Blues on Tuesday
Sem chavo
Sem lume
Sem coca
Sem livro
Sem deus
Sem broca
Sem tola
Sem tempo
Sem pão
Sem merda
Sem peva
Sem porra
Jules Deelder
- Ainda sobre a quadra que aí se aproxima, Maria Fernanda Marcelino leu o belo texto "Glosa de Natal" (da obra O tempo esse grande escultor, de 1976), da grande escritora Marguerite Yourcenar, porque - como remata o texto - "não é mau lembrar estas coisas que toda a gente sabe e que tantos esquecem". O texto pode ser lido em: http://boassas.blogspot.pt/2012/12/glosa-de-natal.html
- António Baeta evocou o poeta Jorge Sena e o seu incontornável poema "Cabecinha romana de Milreu" e trouxe mais um miniconto da sua autoria, intitulado "Um conto a fazer de conta", que já publicara no seu blogue Local & Blogal: http://blogal.blogspot.pt/2005/04/um-conto-fazer-de-conta.html
- José Paulo Vieira revisitou um traço forte de Silves, o grés, num poema a que não faltam subtis (outros) sentidos, denominado "O grés que se desfaz (desfez)":
Do galicismo,
grés,
este quartzo aglomerado.
O detrítico,
arenito,
só de nome, alterado.
A mesma,
rocha.
A mesma,
areia fina,
que há muito
ter-se-á,
juntado.
Nada perene,
esta se definha;
ao leve toque,
ao molhado,
à pequena brisa,
ao vento,
açoitado.
Grés,
de Silves,
há muito se desfaz,
muito,
já se desfez;
esse tom ruivo, porém,
inalterado.
Espero,
que permaneças.
Espero,
que não desvaneças.
Apesar, do que se desfaz...
do que já se desfez,
GRÉS.
28Nov2013
- Quanto a temas, debateu-se o desassoreamento do rio Arade - questão levantada por José Paulo Vieira -, ao nível dos antecedentes e evolução histórica do processo, bem como das expectativas (reais e/ou ilusórias) que se foram criando, ao longo dos tempos, em torno da viabilidade do projecto e das suas repercussões turísticas e económicas para a cidade/concelho de Silves. Frisou-se a importância de haver, em primeiro lugar, uma estratégia bem delineada (e divulgada) de atractividade e de dinamização cultural e turística (consistentes, regulares e abrangentes) para a cidade, a qual envolva quer o Município quer os restantes agentes da sociedade civil (culturais, comerciais, empresariais e outros).
- A propósito de uma recente exposição, por escrito, feita por Manuel Alves à presidência da Assembleia Municipal de Silves, também houve tempo para falar do estado da sinaléctica viária (má colocação, ausência de referências, etc.) patente em vários pontos do concelho, como, por exemplo, no sítio do Poço Frito e na "armadilha" aí existente para os automobilistas no que concerne à questão da velocidade e da aplicação de contra-ordenações.
- Sónia Pereira partilhou um ilustrativo e contundente texto (actualíssimo) da reconhecida investigadora Raquel Varela, intitulado "Vamos comer os velhos". A cientista social relembra o ensaio satírico "Uma modesta proposta", de Jonathan Swift (publicado em 1729), e propõe o seguinte: "comermos os velhos para ficarmos com as reformas e ao mesmo tempo aumentar os níveis de produtividade porque vão servir de carne para alimentar muita gente". Nesta entrevista concedida à revista Time Out Raquel Varela antevê assim um espectáculo-conferência, mano a mano com Rui Zink, que vai estrear em Lisboa precisamente sobre esse tema. Mais info em: http://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2013/11/13/vamos-comer-os-velhos-entrevista-de-raquel-varela-a-time-out/
- Paulo Pires sugeriu a consulta do site Update or die, onde é possível aceder a conteúdos actuais e atractivos, de inegável qualidade e interesse, a nível das seguintes áreas: Criatividade, Música, Design, Tecnologia, Estilo & Comportamento, e Ciência. http://www.updateordie.com/
A PRÓXIMA TERTÚLIA, A ÚLTIMA DE 2013, SERÁ NO DIA 12 DE DEZ, PELAS 21H30, NO QUIOSQUE AL'MUTAMID.
- Marco Mackaaij trouxe vários poemas de autores holandeses - universo pouco conhecido entre nós -, traduzidos por si, e ainda enquadrou e leu, entusiasticamente e com alguma ironia pelo meio, alguns textos poéticos da sua autoria. Entre estes últimos transcrevemos dois:
PIIGS neo-liberais
Somos todos iguarias
Uns ainda mais que outros
Na quinta dos canibais
[sem título]
Uma cara jovem no jornal
Olhar não muito inteligente
Mas sem traços de atraso mental
Não propriamente bonita
Embora não repugnante
A pele denuncia uma fumadora compulsiva
Tem olheiras e uma expressão indiferente
Provavelmente não acabou a escola (ainda)
Não sei porquê, parece-me desempregada
Manhãs na cama, tardes pelas ruas
Noites de televisão e computador
O cinzeiro o depositário da sua frustração
Uma vez por mês a espera na segurança social
Maço de tabaco na mão como a mãe
No ar de jovem insatisfeita já paira
a mulher adulta resignada com a seca
chamada vida
Mas pode ser tudo preconceitos meus
Imagino sempre o pior
Tem apenas uma cara perfeitamente olvidável
Ao passarmos por ela na rua
Numa tarde qualquer
Ele deve ter pensado o mesmo
Antes dela o agredir, derrubar e
pontapear a sua cara (homossexual)
até à morte
E dois exemplos de poetas da Holanda:
O Poeta Romântico
Depois de, uma vez e acima de tudo, me ter apercebido
da dissociação trágica do meu ser
- tinha a certeza que nunca mais recuperava -
desde
descontentamento com o dia-a-dia, mesmo sofrer
de presente inalcançável, doloroso desejo
de não-sei-quê, se tornou dominante
nunca deixei de constantemente morrer jovem.
De Romantische Dichter
Anton Korteweg
Blues on Tuesday
Sem chavo
Sem lume
Sem coca
Sem livro
Sem deus
Sem broca
Sem tola
Sem tempo
Sem pão
Sem merda
Sem peva
Sem porra
Jules Deelder
- Sobre o tema de Natal Ana Paula Baptista partilhou um tocante texto do brasileiro Carlos Drummond d'Andrade intitulado "Organiza o Natal" (retirado da obra Cadeira de Balanço, de 1972). Algumas passagens ilustrativas:
Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom. [...]
A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.
A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.
Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.
O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.
Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.
A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.
O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.
E será Natal para sempre.
Versão integral do texto em: http://www.releituras.com/drummond_organizanatal.asp
Alguém observou que cada vez mais o ano se compõe de 10 meses; imperfeitamente embora, o resto é Natal. É possível que, com o tempo, essa divisão se inverta: 10 meses de Natal e 2 meses de ano vulgarmente dito. E não parece absurdo imaginar que, pelo desenvolvimento da linha, e pela melhoria do homem, o ano inteiro se converta em Natal, abolindo-se a era civil, com suas obrigações enfadonhas ou malignas. Será bom. [...]
A poesia escrita se identificará com o perfume das moitas antes do amanhecer, despojando-se do uso do som. Para que livros? perguntará um anjo e, sorrindo, mostrará a terra impressa com as tintas do sol e das galáxias, aberta à maneira de um livro.
A música permanecerá a mesma, tal qual Palestrina e Mozart a deixaram; equívocos e divertimentos musicais serão arquivados, sem humilhação para ninguém.
Com economia para os povos desaparecerão suavemente classes armadas e semi-armadas, repartições arrecadadoras, polícia e fiscais de toda espécie. Uma palavra será descoberta no dicionário: paz.
O trabalho deixará de ser imposição para constituir o sentido natural da vida, sob a jurisdição desses incansáveis trabalhadores, que são os lírios do campo. Salário de cada um: a alegria que tiver merecido. Nem juntas de conciliação nem tribunais de justiça, pois tudo estará conciliado na ordem do amor.
Todo mundo se rirá do dinheiro e das arcas que o guardavam, e que passarão a depósito de doces, para visitas. Haverá dois jardins para cada habitante, um exterior, outro interior, comunicando-se por um atalho invisível.
A morte não será procurada nem esquivada, e o homem compreenderá a existência da noite, como já compreendera a da manhã.
O mundo será administrado exclusivamente pelas crianças, e elas farão o que bem entenderem das restantes instituições caducas, a Universidade inclusive.
E será Natal para sempre.
Versão integral do texto em: http://www.releituras.com/drummond_organizanatal.asp
- Ainda sobre a quadra que aí se aproxima, Maria Fernanda Marcelino leu o belo texto "Glosa de Natal" (da obra O tempo esse grande escultor, de 1976), da grande escritora Marguerite Yourcenar, porque - como remata o texto - "não é mau lembrar estas coisas que toda a gente sabe e que tantos esquecem". O texto pode ser lido em: http://boassas.blogspot.pt/2012/12/glosa-de-natal.html
- António Baeta evocou o poeta Jorge Sena e o seu incontornável poema "Cabecinha romana de Milreu" e trouxe mais um miniconto da sua autoria, intitulado "Um conto a fazer de conta", que já publicara no seu blogue Local & Blogal: http://blogal.blogspot.pt/2005/04/um-conto-fazer-de-conta.html
- José Paulo Vieira revisitou um traço forte de Silves, o grés, num poema a que não faltam subtis (outros) sentidos, denominado "O grés que se desfaz (desfez)":
Do galicismo,
grés,
este quartzo aglomerado.
O detrítico,
arenito,
só de nome, alterado.
A mesma,
rocha.
A mesma,
areia fina,
que há muito
ter-se-á,
juntado.
Nada perene,
esta se definha;
ao leve toque,
ao molhado,
à pequena brisa,
ao vento,
açoitado.
Grés,
de Silves,
há muito se desfaz,
muito,
já se desfez;
esse tom ruivo, porém,
inalterado.
Espero,
que permaneças.
Espero,
que não desvaneças.
Apesar, do que se desfaz...
do que já se desfez,
GRÉS.
28Nov2013
- Quanto a temas, debateu-se o desassoreamento do rio Arade - questão levantada por José Paulo Vieira -, ao nível dos antecedentes e evolução histórica do processo, bem como das expectativas (reais e/ou ilusórias) que se foram criando, ao longo dos tempos, em torno da viabilidade do projecto e das suas repercussões turísticas e económicas para a cidade/concelho de Silves. Frisou-se a importância de haver, em primeiro lugar, uma estratégia bem delineada (e divulgada) de atractividade e de dinamização cultural e turística (consistentes, regulares e abrangentes) para a cidade, a qual envolva quer o Município quer os restantes agentes da sociedade civil (culturais, comerciais, empresariais e outros).
- A propósito de uma recente exposição, por escrito, feita por Manuel Alves à presidência da Assembleia Municipal de Silves, também houve tempo para falar do estado da sinaléctica viária (má colocação, ausência de referências, etc.) patente em vários pontos do concelho, como, por exemplo, no sítio do Poço Frito e na "armadilha" aí existente para os automobilistas no que concerne à questão da velocidade e da aplicação de contra-ordenações.
- Sónia Pereira partilhou um ilustrativo e contundente texto (actualíssimo) da reconhecida investigadora Raquel Varela, intitulado "Vamos comer os velhos". A cientista social relembra o ensaio satírico "Uma modesta proposta", de Jonathan Swift (publicado em 1729), e propõe o seguinte: "comermos os velhos para ficarmos com as reformas e ao mesmo tempo aumentar os níveis de produtividade porque vão servir de carne para alimentar muita gente". Nesta entrevista concedida à revista Time Out Raquel Varela antevê assim um espectáculo-conferência, mano a mano com Rui Zink, que vai estrear em Lisboa precisamente sobre esse tema. Mais info em: http://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2013/11/13/vamos-comer-os-velhos-entrevista-de-raquel-varela-a-time-out/
- Paulo Pires sugeriu a consulta do site Update or die, onde é possível aceder a conteúdos actuais e atractivos, de inegável qualidade e interesse, a nível das seguintes áreas: Criatividade, Música, Design, Tecnologia, Estilo & Comportamento, e Ciência. http://www.updateordie.com/
A PRÓXIMA TERTÚLIA, A ÚLTIMA DE 2013, SERÁ NO DIA 12 DE DEZ, PELAS 21H30, NO QUIOSQUE AL'MUTAMID.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Vem aí mais uma Tertúlia Mais Pequena do Mundo
Nesta quinta-feira um grupo indeterminado de mentes incontinentes reúne-se no Quiosque Al'Mutamid, em frente à Biblioteca, pelas 21h30, para mais uma tertúlia à volta de livros e temas pessoais, locais, globais. Apareçam e tragam o vosso contributo...
sábado, 23 de novembro de 2013
Paulo Morais em Silves
Faltam 6 dias para o Sarau Instável com Paulo Morais.
Haverá também venda do seu novo livro e sessão de autógrafos.
Imperdível...
Haverá também venda do seu novo livro e sessão de autógrafos.
Imperdível...
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