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Uma parceria entre a Biblioteca Municipal de Silves e as freguesias do concelho para um projecto plurianual de promoção da leitura e da literacia a pensar no que mais importa: as PESSOAS
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Hoje é dia de Tertúlia!
Esperamos por vós hoje para mais uma Tertúlia Mais Pequena do Mundo, no Quiosque Al'Mutamid pelas 21h30. Um espaço de todos e para todos, sem elitismos, academismos e outros "ismos"...
Relembramos que a Tertúlia mudou o seu dia habitual de realização, sendo agora às segundas-feiras, mas mantendo a mesma periodicidade quinzenal e a sua intenção de itinerar por vários espaços da cidade.
Um pertinente vídeo para abrir a semana, porque é urgente a "teimosia"...
Relembramos que a Tertúlia mudou o seu dia habitual de realização, sendo agora às segundas-feiras, mas mantendo a mesma periodicidade quinzenal e a sua intenção de itinerar por vários espaços da cidade.
Um pertinente vídeo para abrir a semana, porque é urgente a "teimosia"...
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Nova agenda mensal da Biblioteca Municipal
(clique na imagem para visualizar)
Já está a ser difundido o novo layout de programação da Biblioteca Municipal de Silves, agora com uma periodicidade mensal. O nosso muito obrigado ao Gabinete de Informação e Relações Públicas (GIRP) do Município pela colaboração e empenho na concepção desta nova imagem.
Um dos novos ingredientes: todos os meses a fotografia que faz capa da agenda será da autoria de um fotógrafo diferente, privilegiando-se os naturais e/ou sediados em Silves. Jovelino MatosAlmeida deu o mote este mês, com uma foto de 2007 intitulada "os sonhos não têm fim".
Aqui ficam as propostas da Biblioteca para Fevereiro e algumas estimulantes antevisões para Março. Divulguem e partilhem!
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Balanço (conclusão)
Segue-se o balanço da última Tertúlia de Janeiro, realizada no dia 23 no Quiosque Al'Mutamid.
Carmo Rosa relembrou um belíssimo poema curto de Miguel Torga, cuja mensagem é plena de actualidade e intemporalidade:
Sísifo
Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
in Diário XIII
Reflectindo sobre formas de incrementar o turismo paisagístico (e cultural) em Silves, António Baeta relembrou um texto escrito no seu blogue em 2004 sobre as amendoeiras em flor, juntando-lhe um apelo ao novo Executivo da Câmara Municipal de modo a potenciar o turismo de inverno na cidade de Silves:
Por onde andarão as amendoeiras?
Sei que não são árvores de sombra, nem árvores ditas decorativas, mas são certamente património do nosso Algarve e, por via da lenda frequentemente atribuída a Silves, um património local.
Não haverá um sítio apropriado, uma pequena área, onde se possa colocar algumas amendoeiras?
Que bem que ficariam na encosta Norte da Alcáçova!
Imagino-as já, na Primavera, iludindo de neve os olhos saudosos dos europeus do Norte que nos visitam, os nostálgicos olhos dos algarvios e dos silvenses que todos os anos as buscam e cada vez as vêem menos, os tristes olhos dos portugueses, que aqui vêm na rota dos mistérios e das belezas do Sol e do Sul.
Património não é só o do passado remoto; é também aquele que a "civilização", no seu passo impiedoso vai destruindo. Saibamos nós mantê-lo, por respeito aos nossos avós e a nós próprios.
Hoje, venho oferecer esta foto e esta minha mensagem à Sr.ª Presidente da Câmara.
Venho sugerir a plantação de amendoeiras na encosta norte do Castelo de Silves.
Essa iniciativa poderá vir a tornar-se um cartaz turístico de Inverno com base na Lenda das Amendoeiras, que vários autores atribuem à nossa cidade.
Imagino já Silves em finais de Janeiro e princípio de Fevereiro, talvez até usando a proximidade do Carnaval, procurada cada vez mais por turistas que querem vivenciar a Lenda das Amendoeiras e usufruir de todo um envolvimento cultural servido pelo teatro, associado à doçaria regional - Morgado de Silves -, a um recital de poesia ou um encontro de poetas em torno desta temática, que se pode estender à música, à dança, a exposições de fotografia ou pintura, a lavores de renda de bilros e de bordados, tão tradicionais em Silves, a um percurso que contemple chaminés com estilizações da flor da amendoeira ou mesmo sem elas...
Nesta sugestão podem caber muito mais coisas e algumas destas que avancei podem até não fazer grande sentido turístico, mas acho que é uma sugestão que pode ser estudada e aplicada e já que as amendoeiras têm que ser plantadas e crescer até dar flor, creio que nada se perde em plantá-las já, naquela encosta abandonada.
O meu bem-haja, Sra. Presidente.
Fernanda Marcelino partilhou uma marcante obra de Henry David Thoreau, Walden ou a vida nos bosques, publicada inicialmente em 1854 e que, de forma autobiográfica (Thoreau retirou-se, de facto, para a floresta em 1845, durante dois anos, onde construiu com as suas próprias mãos a casa e os respectivos móveis, adoptando um modo de vida simples e despojado, em estreito contacto com a natureza), se apresenta uma espécie de manifesto contra a sociedade capitalista e a civilização industrial oitocentistas.
Mas a obra é mais do que isso: é um apelo à reflexão visando uma profunda compreensão da sociedade e a descoberta das verdadeiras necessidades da vida, bem como uma proposta de releitura de conceitos como a liberdade/independência pessoal, a espiritualidade e a auto-suficiência. O livro de Thoreau torna-se-ia mesmo uma referência incontornável para a Ecologia e para o movimento beat e hippie.
A propósito desta sugestão, gerou-se algum debate dentro da Tertúlia sobre o facto de, actualmente, muitas pessoas, nomeadamente jovens (mas não só), estarem a voltar para os campos (o inverso do êxodo rural tão verificado noutros tempos), sobretudo por necessidade económica (a crise/elevado desemprego e, daí, as potencialidades da agricultura e de outras áreas aparentadas em termos de autarcia, qualidade de vida/saúde e de obtenção de rendimentos), mas também como voluntária opção de vida sustentada financeiramente por outras fontes. Lúcia Mendonça deu o seu testemunho sobre este tema aludindo ao seu caso pessoal, isto por se identificar com a mensagem da obra em causa e ter feito também essa opção.
Já depois da Tertúlia, mas ainda dedicado à mesma e voltando à ideia expressa na crónica de Saramago acima referida, Marco Mackaaij enviou-nos de Paris, via email, o seguinte poema:
Mar Morto
A violência começa
Quando a paciência não chega
Quando o oceano que vivemos
Se vê cercado por desertos
E refém mar interior
Depois salina seca... seca...
(2014)
Esmeralda Lopes Alves leu, com os seus bonitos óculos verdes, um poema da sua autoria:
Gravei as tuas palavras a tinta da china
Num papel de arroz matizado a sépia.
Escuta
Há palavras inclinadas sobre o meu coração
Outras vestidas de organdi
Perfumadas porque falam de ti
Meu amor
Não têm tempo, são o sol e são a lua
São a árvore alta do teu jardim
Olha estas, aqui, são labirintos
onde se escondem as saudades,
talvez do que ainda não vivemos.
As sibilas auguram:
Doces palavras sussurradas no estio
À beira rio da nossa memória,
Visionárias, proféticas, sibilinas,
Ao cair da noite,
Anunciam aos quatro ventos
este grito encarcerado na pele.
Agarrei-as
e sai por aí
vou ao teu encontro porque
A hora é nossa!
Paulo Pires falou sobre egoísmo e altruísmo, suas (in)sondáveis aproximações e diferenças (por vezes, tão ténues quanto evidentes), isto a propósito do número especial da revista Egoísta, publicado em Setembro de 2012, na qual participam nomes como Rui Cóias, José Luís Peixoto, Carlos Câmara Leme, António Costa Santos, entre muitos outros. Revisitou também o tema das viagens, errância e nomadismo, evocando Bruce Chatwin e uma obra antológica que a Quetzal publicou em 1997 com textos seus de várias proveniências e registos: Anatomia da errância.
Um dos excertos lidos pertence ao texto "O mundo é nómada nómada", escrito nos anos 70 do séc.XX:
Num dos seus momentos mais sombrios, Pascal disse que a infelicidade de qualquer homem tinha origem numa única causa: a incapacidade de estar quieto num quarto. 'Notre nature', escreveu, 'est dans le mouvement... La seule chose qui nous console de nos misères est le divertissement.' Diversão. Distracção. Fantasia. Mudança de moda, de comida, de amor e de paisagem. Precisamos dela como do ar que respiramos. Sem mudança, os nossos cérebros e corpos deterioram-se. O homem sentado num quarto com as persianas corridas arrisca-se a ficar doido, torturado por alucinações e introspecção.
Na América, alguns especialistas do cérebro fizeram leituras de encefalogramas de viajantes. Concluíram que as mudanças de cenário e a consciência da passagem das estações do ano estimulavam os ritmos cerebrais e contribuíam para uma sensação de bem-estar e um efectivo objectivo na vida. A monotonia do ambiente e as actividades regulares e fastidiosas urdiam configurações que produziam fadiga, desordens nervosas, apatia, ausência de amor-próprio e reacções violentas. [...] Passamos um tempo exagerado e imenso em quartos com persianas.
[...]
'Aquele que não viaja não conhece o valor dos homens', disse Ibne Batuta, o infatigável viajante árabe, que foi dar uma volta à China e voltou, só pelo prazer. Mas a viagem não se limita a expandir a mente. Faz a mente. As nossas primeiras explorações são a matéria-prima da inteligência e, no dia em que escrevo isto, os organismos oficiais concluíram que as crianças presas em andares altos correm o risco de ficar mentalmente retardadas. Porque é que nunca ninguém pensou nisso?
[...]
Ana Cristina trouxe o livro Arriscar, que só aparentemente é uma obra para crianças, reflectindo sobre a importância de não desistir e de continuar de cabeça erguida, "enquanto houver estrada pra andar..."
Maria Lúcia Cabrita partilhou com a Tertúlia um bem disposto e original texto sobre as avós e suas danças e contradanças.
Carmo Rosa relembrou um belíssimo poema curto de Miguel Torga, cuja mensagem é plena de actualidade e intemporalidade:
Sísifo
Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
in Diário XIII
***
Reflectindo sobre formas de incrementar o turismo paisagístico (e cultural) em Silves, António Baeta relembrou um texto escrito no seu blogue em 2004 sobre as amendoeiras em flor, juntando-lhe um apelo ao novo Executivo da Câmara Municipal de modo a potenciar o turismo de inverno na cidade de Silves:
Por onde andarão as amendoeiras?
Sei que não são árvores de sombra, nem árvores ditas decorativas, mas são certamente património do nosso Algarve e, por via da lenda frequentemente atribuída a Silves, um património local.
Não haverá um sítio apropriado, uma pequena área, onde se possa colocar algumas amendoeiras?
Que bem que ficariam na encosta Norte da Alcáçova!
Imagino-as já, na Primavera, iludindo de neve os olhos saudosos dos europeus do Norte que nos visitam, os nostálgicos olhos dos algarvios e dos silvenses que todos os anos as buscam e cada vez as vêem menos, os tristes olhos dos portugueses, que aqui vêm na rota dos mistérios e das belezas do Sol e do Sul.
Património não é só o do passado remoto; é também aquele que a "civilização", no seu passo impiedoso vai destruindo. Saibamos nós mantê-lo, por respeito aos nossos avós e a nós próprios.
Hoje, venho oferecer esta foto e esta minha mensagem à Sr.ª Presidente da Câmara.
Venho sugerir a plantação de amendoeiras na encosta norte do Castelo de Silves.
Essa iniciativa poderá vir a tornar-se um cartaz turístico de Inverno com base na Lenda das Amendoeiras, que vários autores atribuem à nossa cidade.
Imagino já Silves em finais de Janeiro e princípio de Fevereiro, talvez até usando a proximidade do Carnaval, procurada cada vez mais por turistas que querem vivenciar a Lenda das Amendoeiras e usufruir de todo um envolvimento cultural servido pelo teatro, associado à doçaria regional - Morgado de Silves -, a um recital de poesia ou um encontro de poetas em torno desta temática, que se pode estender à música, à dança, a exposições de fotografia ou pintura, a lavores de renda de bilros e de bordados, tão tradicionais em Silves, a um percurso que contemple chaminés com estilizações da flor da amendoeira ou mesmo sem elas...
Nesta sugestão podem caber muito mais coisas e algumas destas que avancei podem até não fazer grande sentido turístico, mas acho que é uma sugestão que pode ser estudada e aplicada e já que as amendoeiras têm que ser plantadas e crescer até dar flor, creio que nada se perde em plantá-las já, naquela encosta abandonada.
O meu bem-haja, Sra. Presidente.
***
Fernanda Marcelino partilhou uma marcante obra de Henry David Thoreau, Walden ou a vida nos bosques, publicada inicialmente em 1854 e que, de forma autobiográfica (Thoreau retirou-se, de facto, para a floresta em 1845, durante dois anos, onde construiu com as suas próprias mãos a casa e os respectivos móveis, adoptando um modo de vida simples e despojado, em estreito contacto com a natureza), se apresenta uma espécie de manifesto contra a sociedade capitalista e a civilização industrial oitocentistas.
Mas a obra é mais do que isso: é um apelo à reflexão visando uma profunda compreensão da sociedade e a descoberta das verdadeiras necessidades da vida, bem como uma proposta de releitura de conceitos como a liberdade/independência pessoal, a espiritualidade e a auto-suficiência. O livro de Thoreau torna-se-ia mesmo uma referência incontornável para a Ecologia e para o movimento beat e hippie.
A propósito desta sugestão, gerou-se algum debate dentro da Tertúlia sobre o facto de, actualmente, muitas pessoas, nomeadamente jovens (mas não só), estarem a voltar para os campos (o inverso do êxodo rural tão verificado noutros tempos), sobretudo por necessidade económica (a crise/elevado desemprego e, daí, as potencialidades da agricultura e de outras áreas aparentadas em termos de autarcia, qualidade de vida/saúde e de obtenção de rendimentos), mas também como voluntária opção de vida sustentada financeiramente por outras fontes. Lúcia Mendonça deu o seu testemunho sobre este tema aludindo ao seu caso pessoal, isto por se identificar com a mensagem da obra em causa e ter feito também essa opção.
[edição original]
Um pequeno excerto:
Uma tarde de Setembro, após um duro dia de labuta, John Farmer sentou-se à porta, com a cabeça ainda no trabalho. Depois de tomar banho sentou-se para dar vazão ao seu ser intelectual. Era um anoitecer frio e alguns vizinhos estavam apreensivos com uma possível geada. Mal tinha mergulhado nos seus pensamentos, ouviu uma flauta; uma melodia que se harmonizava com o seu estado de espírito. Continuou a cismar no trabalho, mas a carga do seu pensamento era tal, que embora lhe fervilhasse na cabeça e ele se achasse a planeá-lo e ideá-lo contra a sua vontade, ainda assim muito pouco lhe dizia respeito. Não passava do descamar da epiderme, constantemente atirada fora. Mas as notas da flauta aninhavam-se-lhe nos ouvidos, vindas de uma esfera diferente daquela em que trabalhava, sugerindo ocupação para certas faculdades que dormitavam nele. Suavemente as notas extinguiam a rua, o povoado e a condição em que ele vivia. Uma voz disse-lhe: - Por que razão continuas tu aqui a viver esta mesquinha vida de labuta, quando te é possível uma existência gloriosa? Aquelas mesmas estrelas sobre outros campos brilham. - Mas como sair desta condição e emigrar de facto para lá? Tudo em que pôde pensar foi em praticar uma nova austeridade, deixar que o seu espírito baixasse ao corpo para redimi-lo, e tratar-se com um respeito cada vez maior.
Obra integral (tradução brasileira) disponível aqui
***
Paula Torres abordou um assunto polémico mas pertinente: a liberalização do consumo de drogas. Leu e comentou, a propósito, um excerto de uma entrevista com o neurocientista afro-americano Carl Hart, professor titular na Universidade de Columbia e defensor de uma visão diferente e inovadora relativamente à questão da dependência química, a qual não passa pelo acentuar de práticas como o internamento nem pelo endurecimento das leis anti-droga.
Neurocientista Carl Hart
O investigador relembra que "as pessoas podem beber todas os dias e ainda assim lidar com todas as suas responsabilidades. O mesmo se dá com usuários de crack, cocaína, maconha". E alerta para o facto de apenas um número muito pequeno de pessoas ter um comportamento psicossocial anómalo devido unicamente às drogas. Na maioria dos casos existem outros motivos/problemas associados, variados, mas Carl Hart frisa que a sociedade em geral está mais preocupada em maldizer as drogas e não tanto em "lidar com os problemas sociais mais complexos que transformam as pessoas em dependentes químicos".
Este tema gerou amplo e entusiasmado debate, nomeadamente em relação ao conceito de "vício"/"viciado" e suas causas (para Hart um viciado é alguém que devido ao consumo não consegue desempenhar as suas funções psicossociais: ir trabalhar, lidar com responsabilidades, descurar aspectos importantes da vida quotidiana, etc.) e às implicações da proibição ou legalização do uso de drogas. Chamou-se a atenção para os perigos de generalizar as conclusões do neurocientista a qualquer tipo de droga, bem como para questões como o conceito de "regularidade" no que toca ao uso de estupefacientes, a importância das especificidades do organismo de cada pessoa e respectiva capacidade física de assimilar/"encaixar" níveis elevados de substâncias consideradas nocivas, a presença e influência das drogas no universo artístico (e, por vezes, o uso mediático e perverso que certos "ícones" fazem dessa associação para obter maior popularidade junto do público), etc.
***
José Paulo Vieira relembrou as emblemáticas cegonhas de Silves e o seu "teco-teco-teco-teco-teco-teco...", lendo um singelo poema da sua autoria e dando a conhecer algumas notas estatísticas e outras relevantes sobre as mesmas, como sejam as várias causas do "aumento acentuado do número de efectivos [de cegonha branca] que ocorrem no nosso país ao longo de todo ano".
Cegonha branca
Teco - teco - teco - teco - teco - teco...
cegonha me animas,
com teu bater de bico
ritmado, intermitente;
inspiras-me em rimas,
em versos me fico... (contigo)
mesmo só, jamais ausente.
Ave pernalta, que das Áfricas vens.
Sabes?...
Em mim, tens
o meu ser, sempre em alta
quando ouço esse teu canto,
Teco - teco - teco - teco - teco - teco...
Teco - teco - teco - teco - teco - teco...
Teu amor a teu par,
monogâmico infindo,
teu ninho, é teu lar;
calas, bem no fundo,
qualquer insano, deste mundo...
Tens o teu céu, não o limbo.
Pássaro que habitas,
teu graveto entrelaçado;
construído...
e por ti arquitectado.
Por menos, não te ficas
e de novo, e, orgulhoso,
Teco - teco - teco - teco - teco - teco...
Teco - teco - teco - teco - teco - teco...
Tua prole, razão absoluta,
viver p'la descendência,
afeição resoluta;
exemplo de vida, em vida,
da forma mais querida...
principal, única essência.
Num etéreo espaço,
num voo planado,
compassado;
num bate asas,
alto ou rasante,
como pêndulo oscilante,
me hipnotizas e calas.
Chaminé antiga teu terraço.
Dessa tua casa,
oiço teu namoro
em teu canto:
Teco - teco - teco - teco - teco - teco...
(José Paulo Vieira)
***
Lúcia Mendonça, a propósito da "substância do amor", partilhou um tocante poema do escritor e jornalista Manuel António Pina:
Completas
A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.
Manuel António Pina (1943-2012)
***
Eugénio de Andrade e José Saramago também foram convidados para a Tertúlia pela voz de Ana Paula Baptista, que leu expressivamente dois singulares textos dos mesmos. A prosa do já falecido Prémio Nobel da Literatura, retirada do livro de crónicas Deste Mundo e do Outro, desencadeou inclusive algumas partilhas a propósito da "violência" (diferente de "agitação") com que tem de se encarar a vida, como, por exemplo, a "violência" que um indivíduo experimenta quando tem de comportar-se de determinada forma, de encaixar/aceitar algumas coisas, de recusar outras, de esquecer ou de lembrar ainda outras...
O sorriso
Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
(Eugénio de Andrade)
Obra publicada em Lisboa em 1971, pela Editora Arcádia (n.º126 da "Biblioteca Arcádia de Bolso")
(contém crónicas escritas para: A Capital e Jornal do Fundão)
A vida é uma longa violência [excerto]
[...] A vida, fique sabendo, é mesmo uma longa violência. Houve um tempo em que achei que era antes uma longa paciência. Eu era mais novo, e por isso mais céptico. Mas hoje (com ou sem paranóia) penso que não senhor, a paciência não vem ao caso. Quando, como se costuma dizer, se vai para a idade, descobre-se que só violentamente se enchem os dias de vida. E então todo o passado aparece sob uma nova iluminação: quando nos julgávamos adormecidos e pacientes, estávamos afinal a acumular energias para o esforço dos últimos metros. A meta está num ponto qualquer, não sabemos onde, mas já que temos de atravessá-la, que seja (como direi?) em glória. Não se trata de aplausos, note-se. É, sim, o canto, o cântico, o hino, a simples ária íntima que dá a cadência do nosso passo acelerado. E para isto é precisa muita violência. A que sujeita os desânimos e as renúncias, a que transforma em corda esticada e vibrante o ser (paranóico, ou não) em que habita. Mas não pisemos ninguém, não confundamos esta violência com essa agitação.
[...]
***
Marco Mackaaij trouxe mais poesia, quer traduzida por si a partir de reconhecidos autores estrangeiros (holandeses e não só, mas praticamente desconhecidos em Portugal), quer da sua autoria:
No nevoeiro
Podes fazê-lo muitas vezes,
ou poucas.
Com a própria amada ou
a doutrem,
com a de ninguém ou
a de ainda ninguém.
Podes fazê-lo assim,
ou assado,
ou, se és jovem,
primeiro assim e
depois assado,
ou ao contrário.
Mas sejam quantas vezes, com quem e
como for:
um barquinho a vapor no nevoeiro
depois.
In de mist
Anton Korteweg (1944-)
Tradução de Marco Mackaaij (2013)
Receita de panela
Primeiro viole um povo
deixe estufar durante séculos
faça memórias levantar fervura
embrulhe a voz do bombo
junte pitada de dor
a saraivada de raiva
abafe o bombo outra vez
depois misture linhas de sangue
em lume brando
veja febre crescer
até energia rebentar
com sede de ritmo
corte bambu e cure
bata bem como o diabo
sempre a mexer junte som do balde de lixo
e punhadas na lata de bolachas
tape em favela
e não toque mais na mistela
quando pronta há-de explodir
Pan Recipe
John Agard
Tradução de Marco Mackaaij (2014)
[sem título]
Nunca aprendi a rezar
Já não fazia parte
Do currículo escolar
E agora já é tarde
As dúvidas têm ossos
Não invejam as certezas
Nos breviários dos moços
Educados com rezas
Às vezes um sentido
Podia ser aliciante
Mas seria desmentido
Ou mirabolante
E milagres são para virgens
Quem nasceu sem os três
Não acredita em ir além
Nem em voltar outra vez.
(Marco Mackaaij - 2010)
Futuro
Depois de ter percorrido o mundo inteiro a consultar aeromantes, acutomantes, cafeomantes, caomantes, capnomantes, cartomantes, catroptomantes, ceromantes, cleromantes, cristalomantes, cromniomantes, dactilomantes, dendromantes, escarpomantes, heteromantes, hidromantes, ichtiomantes, margaritomantes, necromantes, ofdiomantes, oinomantes, ovomantes, piromantes, quiromantes e tiromantes, ele um dia recebeu uma encomenda em casa. Vinha num caixote de madeira, 190 x 60 x 50 cm, com cadeado. Na tampa dizia: Cuidado! Contém futuro. Ele deu um grito, arrastou o caixote para o mercado e vendeu-o ao primeiro interessado. Trancado.
(Marco Mackaaij - 2014)
Obs: vejam aqui o significado das 22 formas curiosas de prever o futuro presentes no texto acima transcrito
Já depois da Tertúlia, mas ainda dedicado à mesma e voltando à ideia expressa na crónica de Saramago acima referida, Marco Mackaaij enviou-nos de Paris, via email, o seguinte poema:
Mar Morto
A violência começa
Quando a paciência não chega
Quando o oceano que vivemos
Se vê cercado por desertos
E refém mar interior
Depois salina seca... seca...
(2014)
***
Esmeralda Lopes Alves leu, com os seus bonitos óculos verdes, um poema da sua autoria:
Gravei as tuas palavras a tinta da china
Num papel de arroz matizado a sépia.
Escuta
Há palavras inclinadas sobre o meu coração
Outras vestidas de organdi
Perfumadas porque falam de ti
Meu amor
Não têm tempo, são o sol e são a lua
São a árvore alta do teu jardim
Olha estas, aqui, são labirintos
onde se escondem as saudades,
talvez do que ainda não vivemos.
As sibilas auguram:
Doces palavras sussurradas no estio
À beira rio da nossa memória,
Visionárias, proféticas, sibilinas,
Ao cair da noite,
Anunciam aos quatro ventos
este grito encarcerado na pele.
Agarrei-as
e sai por aí
vou ao teu encontro porque
A hora é nossa!
***
Paulo Pires falou sobre egoísmo e altruísmo, suas (in)sondáveis aproximações e diferenças (por vezes, tão ténues quanto evidentes), isto a propósito do número especial da revista Egoísta, publicado em Setembro de 2012, na qual participam nomes como Rui Cóias, José Luís Peixoto, Carlos Câmara Leme, António Costa Santos, entre muitos outros. Revisitou também o tema das viagens, errância e nomadismo, evocando Bruce Chatwin e uma obra antológica que a Quetzal publicou em 1997 com textos seus de várias proveniências e registos: Anatomia da errância.
Bruce Chatwin (1940-1989)
Um dos excertos lidos pertence ao texto "O mundo é nómada nómada", escrito nos anos 70 do séc.XX:
Num dos seus momentos mais sombrios, Pascal disse que a infelicidade de qualquer homem tinha origem numa única causa: a incapacidade de estar quieto num quarto. 'Notre nature', escreveu, 'est dans le mouvement... La seule chose qui nous console de nos misères est le divertissement.' Diversão. Distracção. Fantasia. Mudança de moda, de comida, de amor e de paisagem. Precisamos dela como do ar que respiramos. Sem mudança, os nossos cérebros e corpos deterioram-se. O homem sentado num quarto com as persianas corridas arrisca-se a ficar doido, torturado por alucinações e introspecção.
Na América, alguns especialistas do cérebro fizeram leituras de encefalogramas de viajantes. Concluíram que as mudanças de cenário e a consciência da passagem das estações do ano estimulavam os ritmos cerebrais e contribuíam para uma sensação de bem-estar e um efectivo objectivo na vida. A monotonia do ambiente e as actividades regulares e fastidiosas urdiam configurações que produziam fadiga, desordens nervosas, apatia, ausência de amor-próprio e reacções violentas. [...] Passamos um tempo exagerado e imenso em quartos com persianas.
[...]
'Aquele que não viaja não conhece o valor dos homens', disse Ibne Batuta, o infatigável viajante árabe, que foi dar uma volta à China e voltou, só pelo prazer. Mas a viagem não se limita a expandir a mente. Faz a mente. As nossas primeiras explorações são a matéria-prima da inteligência e, no dia em que escrevo isto, os organismos oficiais concluíram que as crianças presas em andares altos correm o risco de ficar mentalmente retardadas. Porque é que nunca ninguém pensou nisso?
[...]
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Ana Cristina trouxe o livro Arriscar, que só aparentemente é uma obra para crianças, reflectindo sobre a importância de não desistir e de continuar de cabeça erguida, "enquanto houver estrada pra andar..."
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Maria Lúcia Cabrita partilhou com a Tertúlia um bem disposto e original texto sobre as avós e suas danças e contradanças.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Tertúlias em Janeiro [balanço]
Neste mês realizaram-se duas animadas tertúlias: no Art'aska Lounge Caffé, a 9; e no Quiosque Al'Mutamid, a 23. Segue-se uma panorâmica temática e textual da primeira, ficando esta última para outro post.
[9 Janeiro]
. A importância das bibliotecas públicas para as comunidades da Europa
Sónia Pereira trouxe este tópico para o debate e recordou a declaração escrita preparada por vários deputados do Parlamento Europeu e apresentada ao mesmo em Outubro de 2013, em que se enumeravam os benefícios que as bibliotecas têm trazido aos países da União. Por exemplo, em 2012 um milhão e meio de europeus candidatou-se a um emprego e 250 000 arranjaram mesmo um posto de trabalho utilizando o acesso gratuito à Internet das bibliotecas públicas. No mesmo ano, em 18 países da Europa. cerca de 100 milhões de cidadãos deslocaram-se a uma biblioteca pública e 14 milhões usaram a rede de bibliotecas para aceder à Internet. Além disso, 24 milhões de europeus recorreram à biblioteca pública da sua área para desenvolverem actividades de aprendizagem de carácter não formal ou informal.
. Escrita à mão facultativa nas escolas?
A partir de um post da reconhecida editora Maria do Rosário Pedreira, inserto no seu blogue http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt, Sónia Pereira reflectiu sobre as consequências do facto de a maioria dos Estados norte-americanos estar a preparar-se para decretar o carácter facultativo da escrita manual em contexto de sala de aula, ao que parece devido ao crescente uso que a sociedade americana, e o meio estudantil em particular, faz dos telemóveis e computadores para efeitos de escrita (mandar recados, escrever textos curtos, etc.). Citando um excerto do texto lido por Sónia Pereira: "Ai, pobre João de Deus, se fosse vivo havia de ter um enfarte... Como dizia a minha amiga no Facebook, será que se esqueceram de que a escrita é o suporte da nossa herança cultural?"
. Recuperação de monumentos no Algarve
José Paulo Vieira relembrou um artigo de imprensa de 2012 versando sobre a urgência de restaurar e requalificar o tecido patrimonial histórico algarvio. Segundo fontes oficiais, há cerca de 59 monumentos que carecem significativamente de intervenção, conforme referenciado no PRIPAlg (Plano Regional de Intervenções Prioritárias do Algarve). Entre os casos mais prementes contam-se o Forte de S. Luís de Almádena (Vila do Bispo), o Convento de N.ª Sr.ª da Assunção (Faro), a Ermida de N.ª Sr.ª da Conceição (Alcoutim), a Fortaleza de Faro, o Forte de Santa Catarina (Portimão), entre outros, incluindo-se neste lote, a nível silvense, a Cruz de Portugal e a Ponte Velha. Neste conjunto os imóveis têm diferentes proprietários, sendo 32 deles do Estados ou dos municípios, 13 da Igreja Católica e 14 de donos privados.
. A influência dos media e das tecnologias no quotidiano e no comportamento humano
Ana Paula Baptista leu uma curiosa e irónica história, de autor anónimo, que nos pôs a pensar sobre os efeitos não poucas vezes perversos da televisão, do telemóvel e do computador, como "boa forma de nos manter ainda mais ignorantes e distraídos face à realidade".
Além dos temas houve tempo também, como já vem sendo habitual, para várias leituras de textos literários, quer da autoria de alguns participantes, quer "bebidos" noutros autores.
Fernanda Marcelino trouxe-nos a sensibilidade de um poeta maior: Eugénio de Andrade.
XXVIII
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha,
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do próprio coração.
Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
a brancura das palavras maduras
ou o medo de perder quem me perdia.
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até sentir
o meu sangue jorrar nas próprias fontes.
Do mesmo incontornável artífice do Verbo, Ana Paula Baptista brindou-nos com duas pérolas: um excerto de uma crónica inserta na obra-colectânea em prosa À sombra da memória; e um dos seus poemas mais emblemáticos.
Sou um homem com vocação para escutar. Vocação e paciência: fixa, imóvel, atenta ao rumor da luz, do coração batendo, ou simplesmente das palavras, quando se juntam para acasalar. Rumores que atravessam a nossa vida, se perdem na memória, regressam com as cabras, o focinho húmido dos primeiros orvalhos. Alguns desses rumores andam connosco desde menino, acabam perdidos num olhar, morrem à míngua de música. Rumores do azul fremente da sombra, dos cães ladrando no adro; rumor da chuva, os pingos grossos pressentindo a agonia das cigarras e do verão sobre as oliveiras; rumor do sol entrando pelo quarto, gatinhando até à cama. Rumor de manhãs antigas de pátios caiados, a égua escouceando de impaciência. Rumor de lágrimas no escuro, de bocas infantis, sílabas breves. Palavras que foram a primeira casa, o primeiro abrigo.
Poema "Adeus", bem como breve nota biográfica e bibliográfica do poeta, acessíveis aqui
Marco Mackaaij continua a dar-nos a conhecer o seu universo poético, com mais três originais composições da sua autoria:
Várias propostas para o novo ano:
Suicidar o fundamentalismo
Proibir a tortura da palavra "tortura"
Ensinar ao Papa o milagre da camisa de Vénus
Arranjar um inimigo comum aos Israelitas e Palestinianos
Convencer os Europeus de que a Europa existe
Apertar a mão pessoalmente a todos os Chineses
Prender o mercado livre e julgá-lo no Tribunal de Contas
Montar uma empresa de exportação de frigoríficos para o ártico.
[2010]
100% Satisfeito
Agradecido à Amazon.uk
por se terem enganado
e de Malmö enviado
uma tarântula reggae
Em vez de elegias espanholas
da guerra civil
com amores perdidos
mortos e feridos
Oito patas pneumáticas
a dançar o limbo
debaixo das gramáticas
do United Kingdo
[2014]
Durmam descansados
Quando os vejo a jogarem wii (no vídeo)
aos urros e com pulos e pinotes,
língua de fora, espuma e perdigotos,
e eu a tentar saborear Ovídio;
Quando os vejo com headphones, no casulo
de adolescente, com cabeça a trote,
smartphone na mão, mensagens em magote,
e eu a tentar manter-me calmo fulo;
Hesito sobre o Portugal futuro:
pode a metamorfose um dia dar
asas a sonhos e os tirar do obscuro?
Mas depois de subir e de os beijar
boa noite e apagar a luz, no escuro
lembro-me do meu pai e do seu olhar.
[2014]
Carmo Rosa estreou-se nas leituras na Tertúlia e revisitou, e bem, o cartunista argentino Quino e a sua Mafalda, feita de sapiência intemporal, com esta breve mas ilustrativa tira:
Esmeralda Lopes Alves recordou vários poemas de um dinâmico e prolixo escritor português: José Jorge Letria. Foram lidos "Abrir as asas e voar", "O verso alcançando o infinito", "Eu vinha por um pouco de vida" e "Portugal, porque sim!". Transcrevemos estes dois últimos:
Eu vinha por um pouco de vida
Eu vinha pela frescura da seda,
pela promessa da água na tua boca
limpa como um alvéolo, como uma fonte.
Eu vinha pela hospitalidade dos teus braços
abertos sobre as dunas, sobre as camas,
sobre a areia macia das paixões furtivas.
Eu vinha pela sede e pela aventura,
com a desabrida idade dos corsários,
dos animais enleantes ziguezagueando
pelo meio dos juncos e das pedras.
Eu vinha pela desordem dos planetas
no meu livro dos mistérios do céu,
no meu mapa dos assombros da alma.
Eu vinha pelo doce veneno de uma língua
semeando no meu corpo os sinais da perdição.
Eu vinha com o sal nos olhos, ardendo
com o lume a queimar-me a fala
e pedia à água para ser chuva
e à chuva, num repente, para ser mar.
Eu vinha por um pouco de vida, só um pouco,
no tumulto da minha existência de papel.
Portugal, porque sim!
Podia chamar-te pai, asa de fogo, planta agreste,
alpendre aberto ao feitiço das estrelas.
Podia aninhar-me no casulo do teu abraço
e adormecer com o mistério que alimenta as tuas lendas.
Podia recordar os nomes dos rios e das serras
e das linhas secundárias que cruzam vales e montanhas.
Podia perguntar pelos teus filhos
esquecidos há muito nas errâncias deste mundo.
Podia querer interpretar a tua melancolia
como um sinal de saudade da grandeza perdida.
Podia reabrir, em página incerta, os teus livros raros,
os dos poetas que engrandeceram a título póstumo,
como os heróis, em pátria de carpideiras
e de oficiantes da mais daninha e entranhada inveja.
Podia entrar nas tuas casinhas baixas,
as de granito e as pintadas com a mansa alvura da cal.
Podia afagar-te as barbas brancas
que se tornaram salgadas no fragor das batalhas.
Podia desenterrar os teus mortos
só para saber que sonhos traídos os levaram à cova.
Podia desmascarar os vendilhões que falam em teu nome
como se falassem de negócios reles numa banca de feira.
Podia perguntar-te porque atravessas cabisbaixo
os largos das aldeias desertas e queres saber
o paradeiro dos teus filhos silenciosos e distantes,
daqueles que tomaram outros rumos
com a dor da tua ausência a ferir-lhes o peito.
Podia deitar-me ao teu colo
como se me deitasse na cama de urze
à beira dos promontórios que vigiam as fúrias do mar.
Podia chorar no teu ombro cansado todas as desditas
que foste obrigado a consentir e a calar.
Podia contar aos meus netos os feitos
do Gama, de Magalhães e de Cabral
e desenhar um mapa de glórias navegantes
só para eles saberem que um dia
usaste a efémera coroa de algas dos reinos do mar.
Podia pedir-te e dar-te contas
de tudo aquilo que sonhámos e não alcançámos.
Podia fazer tudo isso e muito mais,
mas prefiro vislumbrar na tristeza dos teus olhos
a ternura com que segues o rasto das aves e das estrelas
e depois abraçar-te e dizer-te: meu querido Portugal,
serás, até ao fim, a luz que não se apaga nem se rende
quando sonhamos com tudo aquilo que ainda te falta ser.
Da sua criativa produção em prosa destinada ao blogue Local & Blogal, António Baeta brindou-nos com mais um intrigante microconto:
Um homem de ideias arrumadas
O senhor Alfredo era uma figura respeitável. Na pequena cidade onde vivia, era estimado e cumprimentado com respeito e afeição pelas muitas pessoas com quem se cruzava.
Aconteceu que, a partir de determinado momento da sua vida, começou a sentir que as pessoas passaram a comportar-se para com ele de maneira diferente da habitual. Atrever-me-ia a dizer, de duas maneiras diferentes da habitual.
Numa delas, a mais frequente, passou a sentir-se estranha e incomodativamente observado; as pessoas olhavam-no com uma insistência e uma curiosidade exageradas.
Na outra maneira, menos frequente, mas que sucedia de forma regular, as pessoas pareciam receá-lo; passavam por ele desviando o olhar, apressadas, ou fugiam em sentido contrário, como que amedrontadas. Por vezes ia dar com elas escondidas, ao virar da esquina, paradas, a observá-lo. Também, se subitamente parava e desviava a cabeça, para olhar para trás, lá estavam elas e os seus olhares perscrutadores.
Nesse tal momento da sua vida, passara a impor-se-lhe, com regularidade, uma necessidade inadiável de arrumar as ideias. Quando tal acontecia não saía de casa; receava chocar com as pessoas, com os carros, com os objectos. Mas ficar em casa sem ler, sem escrever, sem ver televisão, sentado no sofá sem exercício, por horas, enquanto punha a cabeça a arrumar as ideias, era absolutamente insuportável.
Fora a partir do dia em que assumira a sua decisão, que tudo se alterou no comportamento das pessoas para consigo.
A partir de então, quando necessitava de arrumar as ideias, não mais punha a cabeça ao lado, sobre a mesa. Pegava nela, metia-a debaixo do braço, os olhos bem abertos para não andar aos tombos, e saía para a rua, a passear.
José Paulo Vieira foi ao baú da sua memória afectiva e sentidamente leu:
A Minha Velha Ponte
Minha...
é pretenso,
diria antes,
pretensioso...
pois cioso,
desta Velha Ponte.
Ora,
guardo em mim,
na memória já aprisionada,
a presunção, recalcadamente
assumida,
presumida,
sem uma nesga
a toda a vida.
Velha Ponte,
que agora...
como que,
fronte a fronte,
defronte
te adulo.
Ponte Velha,
que estaciono
no meu pedonal,
passeio;
sentindo o Arade
que tenta,
como qualquer outro rio,
em marés se renovar.
Teus arcos...
uma mão,
provando a água;
seus cinco dedos,
num leito se enterram,
ali entalado,
entre uma Horta
que já foi Grande
e uma marginal,
que seu trânsito contempla,
ainda dão sombra
... desde a liça
até à cegonha.
Vejo,
o vermelho,
do teu velho
e já carcomido grés;
o branco,
mais claro,
de paredes,
quando recentes
de cal,
foram banhadas.
Romana,
Moura,
Medieval,
que agora...
pouco ou nada
me interessa
as tuas origens...
Mas sim,
as vertigens,
não por seres alta
ou imponente,
mas porque
te sinto,
ainda, com vida;
Como Gente!
... Minha Velha Ponte.
Paula Torres sugeriu uma grande obra do escritor Herman Hesse: Gertrud. Um romance de 1910, que fala de música e de um músico mutilado, talvez uma das obras mais românticas (e autobiográficas) de Hesse, inspirada no compositor Hugo Wolf. Do capítulo inicial:
Quando olho, a partir de fora, para a minha vida, ela não me parece especialmente feliz. Mas não posso apelidá-la de infeliz, apesar de todos os erros. É completamente disparatado falar de felicidade ou infelicidade, porque me parece que dou mais importância aos dias mais infelizes da minha vida do que aos dias alegres. Quando na vida se aceita conscientemente o inevitável, se prova o bem e o mal e se alcança, na proximidade com o exterior o destino interior, íntimo e não casual, então a minha vida não foi pobre e não foi má. Se o meu destino exterior passou por mim, como por todos, inevitável e fatal, imposto pelos deuses, é este o meu destino interior, a minha própria obra, cuja doçura ou amargura vem ao meu encontro e pela qual penso ter a responsabilidade absoluta.
Por vezes, em anos longínquos, desejei ser poeta. Se fosse, não resistiria à tentação de seguir as primeiras fontes das minhas mais remotas e ternas recordações, a vida desde as primeiras sombras delicadas da minha infância. Mas estas são-me demasiado preciosas e sagradas para que eu as quisesse estragar de alguma forma. Da minha infância só há a dizer que foi alegre e serena, deram-me a liberdade de descobrir as minhas propensões e os meus dotes, de viver as minhas mais íntimas alegrias e dores e de ver o futuro não como um poder estranho, mas como a esperança e o resultado das minhas próprias forças. E assim andei incólume pelas escolas, como um aluno sossegado, pouco querido e pouco dotado que no fim é aceite porque parece não ter grande influência sobre os outros.
A partir dos meus seis ou sete anos, comecei a perceber que, de todos os poderes invisíveis, era a música que mais fortemente me tocava e me regia. A partir de então passei a ter o meu mundo próprio, o meu abrigo e o meu céu, que ninguém me podia tirar ou denegrir e que eu não desejava partilhar. Era um músico, embora não soubesse tocar nenhum instrumento antes dos doze anos, e não pensasse vir a ganhar a vida fazendo música.
Nada de essencial se modificou desde então e por esse motivo quando olho para trás não me surge uma vida multicolor e multifacetada, pelo contrário, desde o princípio que tem uma tónica única e uma só estrela. Independentemente de as coisas correrem bem ou mal, a minha vida interior mantinha-se imutável. Por longos períodos podia andar por caminhos estranhos, podia não tocar em nenhum caderno de música ou instrumento, havia no entanto uma melodia no meu sangue e nos meus lábios, um compasso e um ritmo na respiração e na vida. Por mais que eu procurasse ansiosamente por outros caminhos uma solução, um esquecimento e uma libertação, e que ansiasse por Deus, pelo conhecimento e pela paz, acabei sempre por encontrar tudo isso apenas e só na música. Não tinha de ser música de Beethoven ou Bach: a música existe para que o homem por vezes seja tocado até ao íntimo por acordes e possa ser inundado por harmonias. Isto foi para mim sempre uma profunda consolação e uma justificação para toda a vida. Oh música! Lembras-te de uma melodia, canta-la sem voz, só intimamente, embebes o teu ser com ela, ela toma posse de todas as tuas forças e durante os momentos em que ela vive em ti desaparece tudo o que é ocasional, mau, rude, triste, deixa que o mundo esteja em harmonia, torna o que é pesado leve e o que é imóvel ganha asas! A melodia de uma canção tradicional pode fazer tudo isso! E apenas a harmonia! Já todos os sons harmoniosos, como o toque de sinos, satisfazem o espírito com encanto e prazer e eleva-se com cada som que ressoa e pode incendiar o coração e fazer tremer de emoção, como nenhum outro prazer.
De todas as representações de felicidade que os povos e os poetas sonharam, a audição da harmonia das esferas parece-me a mais elevada e profunda. É aí que os meus sonhos mais profundos e dourados vagueiam… para ouvir soar por um momento o coração do universo e o conjunto de toda a vida na sua harmonia secreta e intrínseca. Oh, como pode parecer a vida tão emaranhada e desafinada e mentirosa, como é que pode existir apenas mentira, maldade, inveja e ódio entre os homens, e no entanto a mais pequena canção e a música mais simples proclamam claramente que a pureza, a harmonia e o jogo fraternal de sons em uníssono abrem o céu! E como posso censurar ou enfurecer-me, quando eu próprio, com toda a minha boa vontade, não consegui fazer da minha vida nenhuma melodia e nenhuma música harmoniosa? No íntimo sinto a inevitabilidade da exortação, o desejo sequioso de sons puros, agradáveis e bem-aventurados, e tonalidades que se vão dissipando; os meus dias, contudo, estão cheios de acasos e de dissonâncias, e para onde quer que me vire, onde quer que procure, nada me soa tão puro e claro.
Não quero contar nada mais disto. Quando agora me recordo para quem escrevo estas páginas, que tem verdadeiramente poder sobre mim, que me pode exigir a confissão e quebrar a minha solidão, tenho de nomear uma senhora querida, que não só abrange um grande bocado da minha vida e destino, como também pode figurar sobre tudo como estrela e elevado símbolo.
[9 Janeiro]
. A importância das bibliotecas públicas para as comunidades da Europa
Sónia Pereira trouxe este tópico para o debate e recordou a declaração escrita preparada por vários deputados do Parlamento Europeu e apresentada ao mesmo em Outubro de 2013, em que se enumeravam os benefícios que as bibliotecas têm trazido aos países da União. Por exemplo, em 2012 um milhão e meio de europeus candidatou-se a um emprego e 250 000 arranjaram mesmo um posto de trabalho utilizando o acesso gratuito à Internet das bibliotecas públicas. No mesmo ano, em 18 países da Europa. cerca de 100 milhões de cidadãos deslocaram-se a uma biblioteca pública e 14 milhões usaram a rede de bibliotecas para aceder à Internet. Além disso, 24 milhões de europeus recorreram à biblioteca pública da sua área para desenvolverem actividades de aprendizagem de carácter não formal ou informal.
. Escrita à mão facultativa nas escolas?
A partir de um post da reconhecida editora Maria do Rosário Pedreira, inserto no seu blogue http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt, Sónia Pereira reflectiu sobre as consequências do facto de a maioria dos Estados norte-americanos estar a preparar-se para decretar o carácter facultativo da escrita manual em contexto de sala de aula, ao que parece devido ao crescente uso que a sociedade americana, e o meio estudantil em particular, faz dos telemóveis e computadores para efeitos de escrita (mandar recados, escrever textos curtos, etc.). Citando um excerto do texto lido por Sónia Pereira: "Ai, pobre João de Deus, se fosse vivo havia de ter um enfarte... Como dizia a minha amiga no Facebook, será que se esqueceram de que a escrita é o suporte da nossa herança cultural?"
. Recuperação de monumentos no Algarve
José Paulo Vieira relembrou um artigo de imprensa de 2012 versando sobre a urgência de restaurar e requalificar o tecido patrimonial histórico algarvio. Segundo fontes oficiais, há cerca de 59 monumentos que carecem significativamente de intervenção, conforme referenciado no PRIPAlg (Plano Regional de Intervenções Prioritárias do Algarve). Entre os casos mais prementes contam-se o Forte de S. Luís de Almádena (Vila do Bispo), o Convento de N.ª Sr.ª da Assunção (Faro), a Ermida de N.ª Sr.ª da Conceição (Alcoutim), a Fortaleza de Faro, o Forte de Santa Catarina (Portimão), entre outros, incluindo-se neste lote, a nível silvense, a Cruz de Portugal e a Ponte Velha. Neste conjunto os imóveis têm diferentes proprietários, sendo 32 deles do Estados ou dos municípios, 13 da Igreja Católica e 14 de donos privados.
. A influência dos media e das tecnologias no quotidiano e no comportamento humano
Ana Paula Baptista leu uma curiosa e irónica história, de autor anónimo, que nos pôs a pensar sobre os efeitos não poucas vezes perversos da televisão, do telemóvel e do computador, como "boa forma de nos manter ainda mais ignorantes e distraídos face à realidade".
Além dos temas houve tempo também, como já vem sendo habitual, para várias leituras de textos literários, quer da autoria de alguns participantes, quer "bebidos" noutros autores.
Fernanda Marcelino trouxe-nos a sensibilidade de um poeta maior: Eugénio de Andrade.
XXVIII
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha,
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do próprio coração.
Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
a brancura das palavras maduras
ou o medo de perder quem me perdia.
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até sentir
o meu sangue jorrar nas próprias fontes.
Eugénio de Andrade
Do mesmo incontornável artífice do Verbo, Ana Paula Baptista brindou-nos com duas pérolas: um excerto de uma crónica inserta na obra-colectânea em prosa À sombra da memória; e um dos seus poemas mais emblemáticos.
Sou um homem com vocação para escutar. Vocação e paciência: fixa, imóvel, atenta ao rumor da luz, do coração batendo, ou simplesmente das palavras, quando se juntam para acasalar. Rumores que atravessam a nossa vida, se perdem na memória, regressam com as cabras, o focinho húmido dos primeiros orvalhos. Alguns desses rumores andam connosco desde menino, acabam perdidos num olhar, morrem à míngua de música. Rumores do azul fremente da sombra, dos cães ladrando no adro; rumor da chuva, os pingos grossos pressentindo a agonia das cigarras e do verão sobre as oliveiras; rumor do sol entrando pelo quarto, gatinhando até à cama. Rumor de manhãs antigas de pátios caiados, a égua escouceando de impaciência. Rumor de lágrimas no escuro, de bocas infantis, sílabas breves. Palavras que foram a primeira casa, o primeiro abrigo.
Poema "Adeus", bem como breve nota biográfica e bibliográfica do poeta, acessíveis aqui
Marco Mackaaij continua a dar-nos a conhecer o seu universo poético, com mais três originais composições da sua autoria:
Várias propostas para o novo ano:
Suicidar o fundamentalismo
Proibir a tortura da palavra "tortura"
Ensinar ao Papa o milagre da camisa de Vénus
Arranjar um inimigo comum aos Israelitas e Palestinianos
Convencer os Europeus de que a Europa existe
Apertar a mão pessoalmente a todos os Chineses
Prender o mercado livre e julgá-lo no Tribunal de Contas
Montar uma empresa de exportação de frigoríficos para o ártico.
[2010]
100% Satisfeito
Agradecido à Amazon.uk
por se terem enganado
e de Malmö enviado
uma tarântula reggae
Em vez de elegias espanholas
da guerra civil
com amores perdidos
mortos e feridos
Oito patas pneumáticas
a dançar o limbo
debaixo das gramáticas
do United Kingdo
[2014]
Durmam descansados
O Portugal futuro
Ruy Belo
Quando os vejo a jogarem wii (no vídeo)
aos urros e com pulos e pinotes,
língua de fora, espuma e perdigotos,
e eu a tentar saborear Ovídio;
Quando os vejo com headphones, no casulo
de adolescente, com cabeça a trote,
smartphone na mão, mensagens em magote,
e eu a tentar manter-me calmo fulo;
Hesito sobre o Portugal futuro:
pode a metamorfose um dia dar
asas a sonhos e os tirar do obscuro?
Mas depois de subir e de os beijar
boa noite e apagar a luz, no escuro
lembro-me do meu pai e do seu olhar.
[2014]
Carmo Rosa estreou-se nas leituras na Tertúlia e revisitou, e bem, o cartunista argentino Quino e a sua Mafalda, feita de sapiência intemporal, com esta breve mas ilustrativa tira:
Esmeralda Lopes Alves recordou vários poemas de um dinâmico e prolixo escritor português: José Jorge Letria. Foram lidos "Abrir as asas e voar", "O verso alcançando o infinito", "Eu vinha por um pouco de vida" e "Portugal, porque sim!". Transcrevemos estes dois últimos:
Eu vinha por um pouco de vida
Eu vinha pela frescura da seda,
pela promessa da água na tua boca
limpa como um alvéolo, como uma fonte.
Eu vinha pela hospitalidade dos teus braços
abertos sobre as dunas, sobre as camas,
sobre a areia macia das paixões furtivas.
Eu vinha pela sede e pela aventura,
com a desabrida idade dos corsários,
dos animais enleantes ziguezagueando
pelo meio dos juncos e das pedras.
Eu vinha pela desordem dos planetas
no meu livro dos mistérios do céu,
no meu mapa dos assombros da alma.
Eu vinha pelo doce veneno de uma língua
semeando no meu corpo os sinais da perdição.
Eu vinha com o sal nos olhos, ardendo
com o lume a queimar-me a fala
e pedia à água para ser chuva
e à chuva, num repente, para ser mar.
Eu vinha por um pouco de vida, só um pouco,
no tumulto da minha existência de papel.
José Jorge Letria
Portugal, porque sim!
Podia chamar-te pai, asa de fogo, planta agreste,
alpendre aberto ao feitiço das estrelas.
Podia aninhar-me no casulo do teu abraço
e adormecer com o mistério que alimenta as tuas lendas.
Podia recordar os nomes dos rios e das serras
e das linhas secundárias que cruzam vales e montanhas.
Podia perguntar pelos teus filhos
esquecidos há muito nas errâncias deste mundo.
Podia querer interpretar a tua melancolia
como um sinal de saudade da grandeza perdida.
Podia reabrir, em página incerta, os teus livros raros,
os dos poetas que engrandeceram a título póstumo,
como os heróis, em pátria de carpideiras
e de oficiantes da mais daninha e entranhada inveja.
Podia entrar nas tuas casinhas baixas,
as de granito e as pintadas com a mansa alvura da cal.
Podia afagar-te as barbas brancas
que se tornaram salgadas no fragor das batalhas.
Podia desenterrar os teus mortos
só para saber que sonhos traídos os levaram à cova.
Podia desmascarar os vendilhões que falam em teu nome
como se falassem de negócios reles numa banca de feira.
Podia perguntar-te porque atravessas cabisbaixo
os largos das aldeias desertas e queres saber
o paradeiro dos teus filhos silenciosos e distantes,
daqueles que tomaram outros rumos
com a dor da tua ausência a ferir-lhes o peito.
Podia deitar-me ao teu colo
como se me deitasse na cama de urze
à beira dos promontórios que vigiam as fúrias do mar.
Podia chorar no teu ombro cansado todas as desditas
que foste obrigado a consentir e a calar.
Podia contar aos meus netos os feitos
do Gama, de Magalhães e de Cabral
e desenhar um mapa de glórias navegantes
só para eles saberem que um dia
usaste a efémera coroa de algas dos reinos do mar.
Podia pedir-te e dar-te contas
de tudo aquilo que sonhámos e não alcançámos.
Podia fazer tudo isso e muito mais,
mas prefiro vislumbrar na tristeza dos teus olhos
a ternura com que segues o rasto das aves e das estrelas
e depois abraçar-te e dizer-te: meu querido Portugal,
serás, até ao fim, a luz que não se apaga nem se rende
quando sonhamos com tudo aquilo que ainda te falta ser.
Da sua criativa produção em prosa destinada ao blogue Local & Blogal, António Baeta brindou-nos com mais um intrigante microconto:
Um homem de ideias arrumadas
O senhor Alfredo era uma figura respeitável. Na pequena cidade onde vivia, era estimado e cumprimentado com respeito e afeição pelas muitas pessoas com quem se cruzava.
Aconteceu que, a partir de determinado momento da sua vida, começou a sentir que as pessoas passaram a comportar-se para com ele de maneira diferente da habitual. Atrever-me-ia a dizer, de duas maneiras diferentes da habitual.
Numa delas, a mais frequente, passou a sentir-se estranha e incomodativamente observado; as pessoas olhavam-no com uma insistência e uma curiosidade exageradas.
Na outra maneira, menos frequente, mas que sucedia de forma regular, as pessoas pareciam receá-lo; passavam por ele desviando o olhar, apressadas, ou fugiam em sentido contrário, como que amedrontadas. Por vezes ia dar com elas escondidas, ao virar da esquina, paradas, a observá-lo. Também, se subitamente parava e desviava a cabeça, para olhar para trás, lá estavam elas e os seus olhares perscrutadores.
Nesse tal momento da sua vida, passara a impor-se-lhe, com regularidade, uma necessidade inadiável de arrumar as ideias. Quando tal acontecia não saía de casa; receava chocar com as pessoas, com os carros, com os objectos. Mas ficar em casa sem ler, sem escrever, sem ver televisão, sentado no sofá sem exercício, por horas, enquanto punha a cabeça a arrumar as ideias, era absolutamente insuportável.
Fora a partir do dia em que assumira a sua decisão, que tudo se alterou no comportamento das pessoas para consigo.
A partir de então, quando necessitava de arrumar as ideias, não mais punha a cabeça ao lado, sobre a mesa. Pegava nela, metia-a debaixo do braço, os olhos bem abertos para não andar aos tombos, e saía para a rua, a passear.
José Paulo Vieira foi ao baú da sua memória afectiva e sentidamente leu:
A Minha Velha Ponte
Minha...
é pretenso,
diria antes,
pretensioso...
pois cioso,
desta Velha Ponte.
Ora,
guardo em mim,
na memória já aprisionada,
a presunção, recalcadamente
assumida,
presumida,
sem uma nesga
a toda a vida.
Velha Ponte,
que agora...
como que,
fronte a fronte,
defronte
te adulo.
Ponte Velha,
que estaciono
no meu pedonal,
passeio;
sentindo o Arade
que tenta,
como qualquer outro rio,
em marés se renovar.
Teus arcos...
uma mão,
provando a água;
seus cinco dedos,
num leito se enterram,
ali entalado,
entre uma Horta
que já foi Grande
e uma marginal,
que seu trânsito contempla,
ainda dão sombra
... desde a liça
até à cegonha.
Vejo,
o vermelho,
do teu velho
e já carcomido grés;
o branco,
mais claro,
de paredes,
quando recentes
de cal,
foram banhadas.
Romana,
Moura,
Medieval,
que agora...
pouco ou nada
me interessa
as tuas origens...
Mas sim,
as vertigens,
não por seres alta
ou imponente,
mas porque
te sinto,
ainda, com vida;
Como Gente!
... Minha Velha Ponte.
Paula Torres sugeriu uma grande obra do escritor Herman Hesse: Gertrud. Um romance de 1910, que fala de música e de um músico mutilado, talvez uma das obras mais românticas (e autobiográficas) de Hesse, inspirada no compositor Hugo Wolf. Do capítulo inicial:
Quando olho, a partir de fora, para a minha vida, ela não me parece especialmente feliz. Mas não posso apelidá-la de infeliz, apesar de todos os erros. É completamente disparatado falar de felicidade ou infelicidade, porque me parece que dou mais importância aos dias mais infelizes da minha vida do que aos dias alegres. Quando na vida se aceita conscientemente o inevitável, se prova o bem e o mal e se alcança, na proximidade com o exterior o destino interior, íntimo e não casual, então a minha vida não foi pobre e não foi má. Se o meu destino exterior passou por mim, como por todos, inevitável e fatal, imposto pelos deuses, é este o meu destino interior, a minha própria obra, cuja doçura ou amargura vem ao meu encontro e pela qual penso ter a responsabilidade absoluta.
Por vezes, em anos longínquos, desejei ser poeta. Se fosse, não resistiria à tentação de seguir as primeiras fontes das minhas mais remotas e ternas recordações, a vida desde as primeiras sombras delicadas da minha infância. Mas estas são-me demasiado preciosas e sagradas para que eu as quisesse estragar de alguma forma. Da minha infância só há a dizer que foi alegre e serena, deram-me a liberdade de descobrir as minhas propensões e os meus dotes, de viver as minhas mais íntimas alegrias e dores e de ver o futuro não como um poder estranho, mas como a esperança e o resultado das minhas próprias forças. E assim andei incólume pelas escolas, como um aluno sossegado, pouco querido e pouco dotado que no fim é aceite porque parece não ter grande influência sobre os outros.
A partir dos meus seis ou sete anos, comecei a perceber que, de todos os poderes invisíveis, era a música que mais fortemente me tocava e me regia. A partir de então passei a ter o meu mundo próprio, o meu abrigo e o meu céu, que ninguém me podia tirar ou denegrir e que eu não desejava partilhar. Era um músico, embora não soubesse tocar nenhum instrumento antes dos doze anos, e não pensasse vir a ganhar a vida fazendo música.
Nada de essencial se modificou desde então e por esse motivo quando olho para trás não me surge uma vida multicolor e multifacetada, pelo contrário, desde o princípio que tem uma tónica única e uma só estrela. Independentemente de as coisas correrem bem ou mal, a minha vida interior mantinha-se imutável. Por longos períodos podia andar por caminhos estranhos, podia não tocar em nenhum caderno de música ou instrumento, havia no entanto uma melodia no meu sangue e nos meus lábios, um compasso e um ritmo na respiração e na vida. Por mais que eu procurasse ansiosamente por outros caminhos uma solução, um esquecimento e uma libertação, e que ansiasse por Deus, pelo conhecimento e pela paz, acabei sempre por encontrar tudo isso apenas e só na música. Não tinha de ser música de Beethoven ou Bach: a música existe para que o homem por vezes seja tocado até ao íntimo por acordes e possa ser inundado por harmonias. Isto foi para mim sempre uma profunda consolação e uma justificação para toda a vida. Oh música! Lembras-te de uma melodia, canta-la sem voz, só intimamente, embebes o teu ser com ela, ela toma posse de todas as tuas forças e durante os momentos em que ela vive em ti desaparece tudo o que é ocasional, mau, rude, triste, deixa que o mundo esteja em harmonia, torna o que é pesado leve e o que é imóvel ganha asas! A melodia de uma canção tradicional pode fazer tudo isso! E apenas a harmonia! Já todos os sons harmoniosos, como o toque de sinos, satisfazem o espírito com encanto e prazer e eleva-se com cada som que ressoa e pode incendiar o coração e fazer tremer de emoção, como nenhum outro prazer.
De todas as representações de felicidade que os povos e os poetas sonharam, a audição da harmonia das esferas parece-me a mais elevada e profunda. É aí que os meus sonhos mais profundos e dourados vagueiam… para ouvir soar por um momento o coração do universo e o conjunto de toda a vida na sua harmonia secreta e intrínseca. Oh, como pode parecer a vida tão emaranhada e desafinada e mentirosa, como é que pode existir apenas mentira, maldade, inveja e ódio entre os homens, e no entanto a mais pequena canção e a música mais simples proclamam claramente que a pureza, a harmonia e o jogo fraternal de sons em uníssono abrem o céu! E como posso censurar ou enfurecer-me, quando eu próprio, com toda a minha boa vontade, não consegui fazer da minha vida nenhuma melodia e nenhuma música harmoniosa? No íntimo sinto a inevitabilidade da exortação, o desejo sequioso de sons puros, agradáveis e bem-aventurados, e tonalidades que se vão dissipando; os meus dias, contudo, estão cheios de acasos e de dissonâncias, e para onde quer que me vire, onde quer que procure, nada me soa tão puro e claro.
Não quero contar nada mais disto. Quando agora me recordo para quem escrevo estas páginas, que tem verdadeiramente poder sobre mim, que me pode exigir a confissão e quebrar a minha solidão, tenho de nomear uma senhora querida, que não só abrange um grande bocado da minha vida e destino, como também pode figurar sobre tudo como estrela e elevado símbolo.
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