domingo, 9 de março de 2014

Amanhã há tertúlia na sacristia da Sé Catedral de Silves!

Uma tertúlia numa sacristia? Sim, soa a inusitado, mas gostamos de lugares de recolhimento, "intimismo", apaziguamento, onde as palavras se instauram como pontes de partilha, cumplicidade e reinvenção da vida e do mundo.

Amanhã, segunda-feira, às 21h30, estaremos na sacristia da Sé Catedral de Silves (entrada livre, pela porta lateral). O nosso muito obrigado ao dinâmico Sr. Prior Carlos Aquino pela sua abertura e sensibilidade em acolher a Tertúlia neste espaço. Mais info aqui

Em Abril e Maio estaremos em barbearias, farmácias, ateliers/galerias e nalguns domicílios da cidade. Estejam atentos...

Sé Catedral de Silves

quinta-feira, 6 de março de 2014

Programação da Biblioteca Municipal para Março

Alguns destaques...

» L.E.R Cãofiante - terapias assistidas por animais para apoio à leitura
+ info aqui

» À descoberta do... Desenho, por Enteléquia - Filosofia prática para crianças
+ info aqui

» Sarau Instável sobre Motivação, Criatividade e Empreeendedorismo, com dois dos mais reputados e contagiantes comunicadores portugueses, juntos pela primeira vez: Prof. Carlos Lopez Cano Vieira e performer/criativo Paulo Condessa
+ info aqui

» Paulo Condessa em itinerância cultural pelas freguesias (apresentação de obra infantil, palestra, conferências-performance)
+ info aqui

» Lado B: tertúlia + concerto intimista (acústico) com António Manuel Ribeiro, vocalista dos UHF


para visualizar a agenda aceda aqui


segunda-feira, 3 de março de 2014

A caminho das 15000 visualizações...

Balanço das tertúlias de Fevereiro (II)

» Tertúlia a 24 Fev / Café "O Cais" 

Paula Torres e Ana Paula Baptista revisitaram, com dois textos, o grande poeta brasileiro Manoel de Barros e a sua escrita-imaginário carregada de sentidos/sensações, sinestesias, sabores amazónicos e percepções inusitadas. Um poeta a descobrir pelos portugueses...

Manoel de Barros

O Fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre

as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada mais na existência do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

Obra poética do autor, reunida em 2011 pela Editorial Caminho

Entrada 

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com os sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim: O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz. Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem. Perdoem-me os leitores desta entrada mas vou copiar de mim alguns desenhos verbais que fiz para este livro. Acho-os como os impossíveis verossímeis de nosso mestre Aristóteles. Dou quatro exemplos: 1) É nos loucos que grassam luarais; 2) Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

***

Paulo Neto trouxe-nos Gonçalo M. Tavares e as suas desconcertantes/inquietantes visões do mundo e dos abismos do ser humano, retiradas da obra A perna esquerda de Paris seguido de Roland Barthes e Robert Musil:

2

A geometria era como desenhar (com outra forma) números - números com volume - e os números eram desenhos de nada.


Homenagem a Bertolt Brecht:

Eu te cumprimento, Bertolt Brecht, por teres feito literatura dentro da vida sem ser literatura imbecil nem de morte rápida.

Pois bem.

"A reputação dum único general
Chama-se: Dez Mil cadáveres."
Pois bem.

"Chamais grande ao grande, mas pequeno ao pequeno

Pois isto é necessário."
Pois bem.

E ainda isto:


"Muitos que caíram à água, alcançam a brincar a margem do rio.

Outros muito a custo e outros ainda não a alcançam mesmo.
Para o riso isso é indiferente.
Tu tens de alcançar a margem do rio."

Maria Bloom começou a nadar para alcançar a margem do rio.

Bloom passado dez minutos disse-lhe:

Maria, tu estás em cima da terra, porque nadas?

Para alcançar a margem do rio - disse Maria.
Bloom disse: 
Maria, se estás em terra e queres alcançar a margem do rio, talvez seja melhor fazeres a coisa andar.

Bertolt perguntou: 

"Há-de haver um passado quando
Há um futuro?"

E perguntou:

"Pois não seria
Então mais fácil que o Governo
Dissolvesse o Povo e
Elegesse outro?"


Maria Bloom tinha a cabeça curvada e o medo levantado. Gregor segurava um martelo e estava com ele parado de mais na mão. Quem tem assim a mão tão estática quer matar. 
Dois velhos, e o homem velho ainda tem ciúmes da mulher velha. Gregor acusa Maria de tentar seduzir outro homem. 
Maria Bloom chama louco a Gregor no único sítio onde tem coragem: na cabeça. Gregor segura um martelo e Maria viu esse homem matar outro homem e um animal, um burro. Foi há trinta anos, mas era este homem.
E a mão dele continua parada.

Gonçalo M. Tavares

***

Marco Mackaiij trouxe-nos, mais uma vez, literatura de outros países, desta feita dois textos do poeta moderno maior de Israel: Yehuda Amichai.

Um homem e a sua vida

Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.
Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos. Eclesiastes
está enganado acerca disto.

Um homem precisa de amar e odiar no mesmo instante,
de rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
de fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.
E de odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
de planear e confundir, de comer e digerir
que história
leva anos e anos a fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra
esquece, quando esquece ama, quando ama
começa a esquecer.

E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.
Só o seu corpo permanece sempre
um amador. Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,
embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,
as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar
onde há tempo para tudo.

Trad.: Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro

Yehuda Amichai (1924-2000)

Turistas (parte 2)

Uma vez estava eu sentado nos degraus junto a um portão da Torre de David, as minhas duas cestas pesadas colocadas no chão ao meu lado. Um grupo de turistas rodeava um guia e eu tornei-me o seu ponto de referência. "Estão a ver aquele homem com as cestas? Mesmo à direita da sua cabeça encontra-se um arco do período romano. Mesmo à direita da sua cabeça." "Mas ele está a mexer-se, ele está a mexer-se!" Eu disse comigo próprio: redenção só virá quando o guia lhes contar, "Estão a ver aquele arco do período romano? Não é importante, mas mesmo ao lado, à esquerda e um pouco abaixo, está sentado um homem que há pouco comprou fruta e vegetais para a sua família."


Tourists (part 2)
Yehuda Amichai
Trad.: Marco Mackaaij (2014)

***

Maria Lúcia Cabrita revisitou, em tom lúdico, a originalidade e criatividade da sabedoria popular com uma cega-rega cujo protagonista é uma peste mortífera que dá pelo curioso/intrigante nome de "tranglomanglo"*: 

O tranglomanglo

Minha mãe teve dez filhos 
todos dez dentro de um pote: 
deu o tranglomanglo neles, 
não ficaram senão nove.

Desses nove que ficaram 

foram amassar biscoito: 
deu o tranglomanglo neles, 
não ficaram senão oito.

Desses oito que ficaram 

foram pentear o tapete: 
deu o tranglomanglo neles, 
não ficaram senão sete.

Desses sete que ficaram 

foram esperar os reis: 
deu o tranglomanglo neles, 
não ficaram senão seis.

Desses seis que ficaram 

foram depenar um pinto: 
deu o tranglomanglo neles, 
não ficaram senão cinco.

Desses cinco que ficaram 

foram depenar um pato: 
deu o tranglomanglo neles, 
não ficaram senão quatro.

Desses quatro que ficaram 

foram matar uma rês: 
deu o tranglomanglo neles, 
não ficaram senão três.

Desses três que ficaram 

foram dar comida aos bois: 
deu o tranglomanglo neles, 
não ficaram senão dois.

Desses dois que ficaram 

foram matar um peru: 
deu o tranglomanglo neles, 
e não ficou senão um.

E esse um que ficou 

foi ver amassar o pão: 
deu o tranglomanglo nele, 
e acabou-se a geração.

*O vocábulo tanglomango (= tranglomanglo = tangomangro = tangromangro = trangromango = tângoro-mângoro = tângor-mangro = tangro-mangro, significando "bruxedo", "sortilégio", "malefício"), usado na expressão "dar o tranglomango", é de origem provavelmente onomatopaica. 

***

Paulo Pires trouxe três poemas de Bertolt Brecht para desencadear debate entre a Tertúlia sobre temas intemporais como a persistência, o individualismo e a solidariedade/altruísmo, a mobilização cívica e outras atitudes sociais ligadas à afirmação, negação ou indefinição perante causas que tocam a todos.

Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam muitos dias, e são muito bons;
Há homens que lutam muitos anos, e são melhores;
Mas há os que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis!

Bertolt Brecht (1898-1956)

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho o meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo. 



Quem fica em casa quando a luta começa*

Quem fica em casa quando a luta começa
E deixa os outros combater p'la sua causa
Tem de ter cuidado: pois
Quem não partilhou da luta
Partilhará da derrota.
Nem sequer evita a luta
Quem evitar a luta: pois
Lutará p'la causa do inimigo
Quem não lutou p'la própria causa.

*Faz parte do fragmento da "Cantata de Koloman-Wallisch". K. W., operário revolucionário, perdeu a vida durante as lutas dos trabalhadores austríacos em Fevereiro de 1934.

***

Carmo Rosa voltou aos tempos de infância recordando o seu (velhinho mas afectivo) livro de ensino primário, lendo, em particular, um texto - obviamente datado e bem ilustrativo da mentalidade e ideologia salazaristas da época - sobre um tema bem actual: a emigração. [cliquem nas imagens com texto para ler melhor]




***

António Gonçalves partilhou com a Tertúlia um pertinente e actualíssimo cartoon (e comentário seu ao mesmo) sobre a Liberdade: para ler e pensar... [cliquem nas imagens com texto para ler melhor]




quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Balanço das tertúlias de Fevereiro (I)

» Tertúlia a 10 Fev / Quiosque Al'Mutamid

António Gonçalves trouxe-nos um interessante artigo do médico psiquiatra Pedro Afonso, publicado no jornal Público em 2010, sobre a saúde mental dos portugueses e o impacto das doenças mentais na população, chamando a atenção para visões políticas obsessivamente centradas nos números e nas estatísticas, "esquecendo que a sociedade é feita de pessoas". Texto integral aqui

***

Ana Paula Baptista leu dois textos do grande escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano (autor que urgia divulgar mais em Portugal):

A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.


Eduardo Galeano

As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que nalgum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não choveu ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.

Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos.
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialectos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não têm cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

***

Paulo Neto revisitou o poeta maior Ruy Belo - o homem que, como diz o final do texto seguidamente transcrito, "procurou na linguagem um contorno para o silêncio que há no vento, no mar, nos campos"com um dos seus melhores textos em prosa, o qual funciona como uma espécie de súmula estético-ideológica ou arte poética da sua obra: "Breve programa para uma iniciação ao canto" (publicado inicialmente na introdução à obra Transporte no Tempo, de 1973):

Ao escrever, e independentemente do valor do que escrevo, tenho às vezes a vaga consciência de que contribuo, embora modestamente, para o aperfeiçoamento desta terra onde um dia nasci para nela morrer um dia para sempre. Dou palavras um pouco como as árvores dão frutos, embora de uma forma pouco natural e até antinatural porquanto, sendo como o é a poesia uma forma de cultura, representa uma alteração, um desvio e até uma violência exercidos sobre a natureza. Mas, ao escrever, dou à terra, que para mim é tudo, um pouco do que é a terra. Nesse sentido, escrever é para mim morrer um pouco, antecipar um regresso definitivo à terra.

Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras. Violento-me. Altero uma ordem, uma harmonia, uma paz que, mais do que a paz invocada como instrumento de opressão, mais do que a paz dos cemitérios, é a paz, a harmonia das repartições públicas, dos desfiles militares, da concórdia doméstica, das instituições de benemerência. Ao escrever, mato-me e mato. A poesia é um acto de insubordinação a todos os níveis,  desde o nível da linguagem como instrumento de comunicação até ao nível do conformismo, da conivência com a ordem, qualquer ordem estabelecida.

O poeta deve surpreender-se e surpreender, recusar-se como instituição, fugir da integração, da reforma que até mesmo pessoas e grupos aparentemente progressivos lhe começam subtilmente a tentar impor o mais tardar aos trinta anos. Abaixo o oportunismo, a demagogia, seja a que pretexto for. O poeta deve desconfiar dos aplausos, do êxito e até passar a abominar o que escreveu logo depois de o ter escrito. 

Numa sociedade onde quase todos, pertencentes a quase todos os sectores, procuram afinal instalar-se o mais cedo possível, permanecer fiéis à imagem que de si próprios criaram pessoalmente ou por interpostas pessoas, o poeta denuncia-se e denuncia, introduz a intranquilidade nas consciências, nas correntes literárias ou ideológicas, na ordem pública, nas organizações patrióticas e nas patrióticas organizações.

Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir. Alguém se encarregará de institucionalizar o escritor, desde os amigos, os conterrâneos, os companheiros de luta, até todas aquelas pessoas ou coisas que abominou e combateu. Acabarão por lhe encontrar coerência, evolução harmoniosa, enquadramento numa tradição. Servir-se-ão dele, utilizá-lo-ão, homenageá-lo-ão. Sabem que assim o conseguirão calar, amordaçar, reduzir.

É claro que falo do poeta e não do poetastro, do industrial e comerciante de poemas, do promotor da venda das palavras que proferiu. Falo do homem que nunca repousou sobre o que escreveu, que recusou a servir-se a si e a servir, que constantemente se sublevou.

Falo do homem que, ombro a ombro com os oprimidos, empunhando a palavra como uma enxada ou uma arma, encontrou ou pelo menos procurou na linguagem um contorno para o silêncio que há no vento, no mar, nos campos.

O poeta, sensível e até mais sensível porventura que os outros homens, imolou o coração à palavra, fugiu da autobiografia, tentou evitar a todo o custo a vida privada. Ai dele se não desceu à rua, se não sujou as mãos nos problemas do seu tempo, mas ai dele também se, sem esperar por uma imortalidade rotundamente incompatível com a sua condição mortal, não teve sempre os olhos postos no futuro, no dia de amanhã, quando houver mais justiça, mais beleza sobre esta terra sob a qual jazerá, finalmente tranquilo, finalmente pacífico, finalmente adormecido, finalmente senhor e súbdito do silêncio que em vão tentou apreender com as palavras, finalmente disponível já não tanto para o som dos sinos como para o som dos guizos e chocalhos dos animais que comem a erva que afinal pôde crescer no solo que ele, apodrecendo, adubou com o seu corpo merecidamente morto e sepultado.


Ruy Belo [1933-1978]

***

António Baeta falou de um tema pleno de actualidade no que toca a Silves: o auto-caravanismo. Leu um post que inseriu no seu blogue (o qual pode ser lido aqui) e falou de um debate sobre essa temática ocorrido no início deste mês em Castro Marim. 

Houve contributos pertinentes e diversificados de vários membros da tertúlia relativamente a este assunto, focando-se questões como: a falta, há muito tempo, de planeamento e regulamentação prévios, e de fiscalização, por parte da autarquia e demais entidades competentes, relativamente às zonas ocupadas pelos caravanistas na cidade (com as consequências conhecidas), esperando-se, assim, resoluções institucionais a breve trecho; a ausência de efectiva percepção/estudo (e a disseminação, entre a opinião pública, de várias distorções e contra-informações) do impacto real desse tipo de turismo na economia local; os efectivos benefícios promocionais, para a cidade/concelho, da presença dos caravanistas; a existência de um parque de auto-caravanismo, de iniciativa privada, à saída de Silves para Monchique e a conciliação (ou não) desse projecto com a realidade patente junto às Piscinas Municipais e atrás do Castelo; entre outras questões. 

O António partilhou ainda um bonito texto em prosa poética postado no seu blogue Local & Blogal a 4 de Fevereiro deste ano:

À espera do meu olhar

Armação de Pêra, junto à Ribeira de Alcantarilha, na manhã de 3 de Fevereiro de 2014


Há um certo gosto particular pela cor e pelos jogos da cor nas tonalidades de um ocaso, nos fortes azuis do céu, nos verdes das florestas a perder de vista. Até mesmo num contraluz espetral.

Pode até abusar-se do uso dessas cores, paisagens e tonalidades quando se pretende impressionar alguém.


Acontece que gosto muito desta minha foto e ela não abusa daquelas premissas.


A foto quase não tem cor, dadas as condições sombrias do tempo.


São quatro faixas sobrepostas: a da água da ribeira, a da areia e sua zona dunar, a do mar e a do céu.


Há uns certos reflexos de luz, tanto no mar, como na superfície da água da ribeira, que podem eventualmente atrair algum desse gosto particular por essa expressão do belo, aristotélico e romântico, mas são tão ténues e discretos, que não me parece que ganhem especial importância.


Mas eu gosto desta minha foto sem esses ingredientes e não é por vaidade que o digo; é que no preciso momento em que fixei este enquadramento e me decidi pelos parâmetros da minha câmara eu já gostava do que via, antes ainda da paisagem se tornar fotografia.

Ela já lá estava à espera do meu olhar.



***   

Lúcia Mendonça proporcionou-nos um momento muito especial reproduzindo no computador, para audição dos tertuliantes, o poema maior "Inquietação", de José Mário Branco, neste caso para ser lido/ouvido na companhia de um vídeo-animação de Ryan Woodward, com voz de Camané e música dos Dead Combo, aqui

A contas com o bem que tu me fazes 
A contas com o mal por que passei 
Com tantas guerras que travei 
Já não sei fazer as pazes 

São flores aos milhões entre ruínas 

Meu peito feito campo de batalha 
Cada alvorada que me ensinas 
Oiro em pó que o vento espalha 

Cá dentro inquietação, inquietação 

É só inquietação, inquietação 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei ainda 

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer 

Qualquer coisa que eu devia perceber 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei ainda 

Ensinas-me a fazer tantas perguntas 

Na volta das respostas que eu trazia 
Quantas promessas eu faria 
Se as cumprisse todas juntas 

Não largues esta mão no torvelinho 

Pois falta sempre pouco para chegar 
Eu não meti o barco ao mar 
Pra ficar pelo caminho 

Cá dentro inquietação, inquietação 

É só inquietação, inquietação 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei ainda 

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer 

Qualquer coisa que eu devia perceber 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei 
Porquê, não sei ainda 

Cá dentro inquietação, inquietação 

É só inquietação, inquietação 
Porquê, não sei 
Mas sei 
É que não sei ainda 

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer 

Qualquer coisa que eu devia resolver 
Porquê, não sei 
Mas sei 
Que essa coisa é que é linda



***

Num registo mais humorístico e desconcertante, mas igualmente criativo, Paula Torres trouxe-nos a ciência vista do avesso, neste caso com um original texto sobre a "Termodinâmica do Inferno", que pode ser lido aqui

***

Ana Maria trouxe-nos dois exemplos do melhor da poesia de Sophia de Mello Breyner, plena de intemporalidade e actualidade:

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira

À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"

Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."

Ó vendilhões do templo

Ó constructores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor

Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen (foto de Eduardo Gageiro)

Com fúria e raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo 
E o seu capitalismo das palavras 

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada 

Que de longe muito longe um povo a trouxe 
E nela pôs sua alma confiada 

De longe muito longe desde o início 

O homem soube de si pela palavra 
E nomeou a pedra a flor a água 
E tudo emergiu porque ele disse 

Com fúria e raiva acuso o demagogo 

Que se promove à sombra da palavra 
E da palavra faz poder e jogo 
E transforma as palavras em moeda 
Como se fez com o trigo e com a terra 


***

Fernanda Marcelino fez uma serena mas irónica apologia da anti-leitura com um saboroso texto de José Fanha intitulado "Manifesto Anti-Leitura" (escrito em 2012 no âmbito do projecto "Ler em Todo Lado" - II Arruada de Leitura, realizado pelas bibliotecas municipais de Lisboa e dito pelo actor Manuel Coelho), claramente inspirado no fervoroso Manifesto Anti-Dantas de José de Almada Negreiros, publicado em 1915.






***

A Carmo Rosa foi beber a Pedro Chagas Freitas uma acutilante e lúcida crónica escrita pelo mesmo na imprensa nacional, intitulada " Senhoras e senhores: o produto mais diabólico da Humanidade", no qual se aborda ideias como infelicidade e subfelicidade, numa tocante e perscrutante radiografia da psicologia colectiva/"sociologia afectiva" nacionais. Aqui

Pedro Chagas Freitas


***

Marco Mackaaij trouxe-nos poemas seus e algumas traduções de poesia de latitudes menos conhecidas dos portugueses:

Sabes, eu gosto de ti

acho-te tão meiga e ligeira -
teus olhos tão cheios de luz,
gosto de ti, gosto de ti. 

E o teu nariz e cabelos e boca, 
teus olhos e teu pescoço querido
onde na gola da tua roupa
tens teu ouvido escondido. 

Sabes, gostava imenso de ser
tu, mas isso não pode ser,
a luz envolve-te, a gente é
simplesmente aquilo que é.

Ai sim, gosto de ti, 
gosto tanto e tanto de ti,
gostava de dizê-lo por completo - 
mas não o consigo em concreto. 

Zie je ik hou van je
Herman Gorter (1864-1927)
Trad.: Fernando Venâncio 


Deixaste-me só...

deixaste-me só
mas já te perdoei

porque sei que ainda estás algures
ainda esta noite, quando deambulava
pela cidade, vi a tua silhueta no vidro
duma casa de banho

e ontem ouvi-te na floresta a rir
vês, sei que ainda estás

há pouco tempo passaste por mim com mais quatro 
pessoas num carro velho
e apesar de seres a única que
não olhava para trás, sabia que eras
a única que me reconhecia a única
que sem mim não consegue viver

e sorri

tinha a certeza de que não me abandonavas
amanhã talvez regresses 
ou então depois de amanhã ou quem sabe nunca

mas não consegues abandonar-me

Je hebt me alleen gelaten
Hans Lodeizen (1924-1950)
Trad.: Marco Mackaaij (2013)

(foto de Mário Passos Furtado)

(vídeo "Funcheira Blues", de Mário Passos Furtado)


Póquer

Está na altura de abrirmos o jogo, minha
querida. As cartas em cima da mesa. Eu tenho
duas: a mim próprio e o que escrevo. Não
têm muito valor, para não
dizer que não contam para nada. A tua

mão é mais rica: o teu corpo
ainda é o menos, embora não seja
nada mau. Mas também tens ilusões
ainda, e esperança. Tens tudo
do que existe. No entanto já me

aborreces às vezes, negar não
vale a pena. Provavelmente também sabes: 
habituação é uma doença, ataca
desde o início, e no
fim é melhor partir. 

Não quero falar disso agora. 
O que virá, virá. Porém:
Nunca se tratará de culpa.
E muito menos de esquecer. Que, neste
país de beatos e castrados, 

neste tempo de resistência e 
estupidez, houve duas vidas que
se cruzaram, com um fogo-de-artifício
de palavras vãs, e a consolação
dalgum tumulto físico. 

Poker
Tom Lanoye (1958-)
Trad.: Marco Mackaaij (2013)


Querida, 

Deixa-me escrever-te esta carta de amor. 
Sei que já somos casados, mas quero
escrever-te uma carta de amor.
O casamento já não é a prisão que era
nos tempos de até que a morte nos separe
Talvez seja ainda uma prisão preventiva em regime aberto,
com anel no dedo em vez de pulseira electrónica.
Já não é propriamente contra sérias tentativas de fuga, 
mas contra aquelas "escapadelas" irreflectidas,
hábito que poderia ter ficado dos anos de solteiro. 
Mas onde há portas abertas, há borboletas a entrar e a sair. 
Portanto, sinto que escrever-te uma carta de amor não é má ideia. 

Flores e palavras fazem sentido, mesmo que as primeiras
só durem uma semana e as segundas às vezes nem isso.
Quem ama tem outra noção do tempo, o eterno
está sempre presente em cada beijo, mesmo no último, 
que nunca sei quando será e apenas saberei quando foi.

Marco Mackaaij (2012)


***

Paulo Pires sugeriu três cd's nas áreas do jazz instrumental e world music

» White works, de João Paulo [piano]
São primorosas improvisações a partir de composições originais do contrabaixista Carlos Bica). 
Em 2009 foi eleito o melhor cd de Jazz do ano em Portugal. 





» Nights from the Alhambra [duplo cd + dvd], de Loreena Mckennitt (cantora e compositora canadense)
Álbum gravado ao vivo em Setembro de 2006 em Granada, Espanha, no complexo de Alhambra, palácio de Carlos V. 
O concerto marcou o regresso da intérprete ao cenário musical após uma ausência de 7 anos. 
São múltiplas as fusões e influências da sua inebriante música, plena de pontes quer com o universo da literatura, da filosofia e da espiritualidade, quer com a magia e envolvência de certos lugares por onde viajou. 


DVD na íntegra [1:39:31]


» Palace Ghosts and Drunken Hymns, de Will Holshouser Trio + Bernardo Sassetti
Álbum de 2009, da discográfica Trem Azul, que junta um pianista e um acordeonista de duas nacionalidades e experiências distintas, mas com uma linguagem comum: a música improvisada. 
O trio nova-iorquino (acordeão, contrabaixo e trompete) e Sassetti conseguem aqui um trabalho de grande qualidade, a não perder...



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José Paulo Vieira revisitou, com um poema da sua autoria, uma das imagens mais emblemáticas do Algarve nesta altura do ano: 

Da Amendoeira

És árvore...
Asiática origem,
traz já,
duma longínqua
lembrança;
a que, exigem
um maná,
fruta profícua,
eterna herança,
          da Amendoeira.

De moura encantada...
Outrora:
resgatada,
Amêndoa velada,
de burca vestida.
Agora:
partida,
casca, desabrida,
seus olhos, amada,
          da Amendoeira.

Qual, neve fria...
Flor alva
havia,
em monte cobria,
Princesa foi salva;
branco,
dum Norte,
sua origem, encanto,
ilusão, sua sorte,
          da Amendoeira.

Em pleno estio...
Rosácea planta,
um som se ouve:
VVVVVVVVVV...
VVVVVVVVVV...
VVVVVVVVVV...
Um varejar;
é doentio,
a tituete que canta,
a calma da estação,
em apanha de Verão,
          da Amendoeira.

De um seco fruto...
Também ripado
e ao rebusco;
tem-se o amargo,
em doce usufruto,
depois de apanhado,
um grande encargo,
um muito a custo,
a Amêndoa,
          da Amendoeira.

Inteiro ou triturado...
Doce cru,
Dom Rodrigo,
sabor ancestral
em doce conventual.
De óleo a nu,
minha pele recebe.
Eu estou contigo,
licor que se bebe,
          de Amêndoa da Amendoeira.

O encanto
daquele branco,
da flor,
que me espanto
vê-la, em amor,
          de Amendoeira da Amêndoa.